Bahia é oitavo estado em número de homicídios contra as mulheres

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    Uma mancha de sangue na esquina da rua Amélia Rodrigues com a Barão de Capanema, na Graça, é a marca final do ciúme do segurança Guilherme Marotta Soares de Almeida, 40 anos. Inconformado com o fim do relacionamento de 8 anos com a ajudante de cozinha Sônia Bárbara Oliveira Souza, 32, ele matou a ex-mulher na porta do trabalho dela.

    Na manhã desta segunda, Guilherme surpreendeu Sônia quando ela chegava no restaurante Mignon. Após uma discussão, ele atirou quatro vezes, atingindo a ex-companheira no peito e no braço. Ela ainda foi socorrida por colegas para o Hospital Geral do Estado (HGE), mas não resistiu. “Só vi ele abraçar ela e atirar. Muita covardia. A cena vai ficar na minha cabeça”, contou um morador do bairro.

    Segundo testemunhas, Guilherme gritava muito. “O primeiro tiro que ele deu atingiu o vidro de um carro. Ele perguntava: por que você não foi dormir em casa?”, relatou outro homem que viu a cena.

    Confissão 
    Após o crime, Guilherme se entregou em um posto da Polícia Militar na Avenida Centenário. “Ele disse que acordou meio diferente e resolveu matar ela. Estava muito nervoso. Chorava e dizia que estava arrependido”, contou o tenente Pereira, da 11ª CIPM.

    Encaminhado para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), o segurança foi autuado em flagrante. “Ele disse que tentou reatar diversas vezes e que, numa crise de ciúmes, foi ao trabalho dela”, contou o delegado Gilvêncio Menezes. Ainda à polícia, Guilherme relatou que há dois meses ele e Sônia não viviam como casal, apesar de viverem na mesma casa.

    O segurança trabalhava na TVE, terceirizado pela empresa Áquila, proprietária do revólver 38 que ele usou para cometer o crime. Na manhã de ontem, segundo funcionários da empresa, ele disse que estava se sentindo mal e que iria ao médico.

    “A gente achou estranho porque ele é supercalmo”, afirmou um colega do segurança, que esteve no DHPP. Os representantes da direção da Áquila não foram localizados pelo CORREIO.

    Os pais de Guilherme estiveram no DHPP assim que souberam do caso. “Foi um caso que a gente não esperava que acontecesse”, limitou-se a dizer a mãe do segurança.

    Ameaças 
    Amigas da vítima relataram à polícia que Sônia vinha sendo ameaçada pelo ex-companheiro. Uma delas chegou a dizer que foi em sua casa que a vítima passou a noite. “Elas disseram que Sônia não prestou queixa porque estava com medo de ter mais problemas”, disse a titular da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam), Helenice Nascimento.

    Ana Lúcia Martins, dona do restaurante Mignon, fala de Sônia com comoção. “Ela era excelente. Responsável. Trabalhava na parte de saladas”.

    De acordo com amigos, o corpo de Sônia será enterrado hoje na cidade de Santa Bárbara, a 140 quilômetros de Salvador, onde mora a sua família. Nenhum parente da vítima foi localizado para confirmar as informações sobre o sepultamento.

    Bahia: violência contra mulher
    A morte de Sônia Souza foi a terceira em casos de violência contra a mulher com motivação passional, registrados em Salvador em menos de 24 horas. Na rua Dr. Jorge Costa Andrade, em Águas Claras, Maria Climendes Silva, 40 anos, morreu após ser atingida por vários golpes de faca no tórax.

    O assassino era seu marido, Cosme de Assis Souza, 46, com quem ela teve três filhos. De acordo com a polícia, Cosme desconfiava que estava sendo traído, por isso cometeu o crime. Já em Alto de Coutos, uma adolescente de 17 anos morreu depois de ser esfaqueada na casa do namorado na noite de domingo. A suspeita da polícia é que o crime tenha sido cometido pelo companheiro da jovem.

    Crimes semelhantes a estes compõem as estatísticas de assassinatos de mulheres na Bahia, oitavo estado do país onde mais ocorrem mortes desta natureza. A taxa é de 5,6 homicídios para cada grupo de 100 mil mulheres, de acordo com o Mapa da Violência 2012, produzido pelo Instituto Sangari e publicado pelo Ministério da Justiça.

    A mesma taxa foi verificada em Salvador, que ocupa a 16ª posição entre as capitais do país. O índice supera o nacional, que é de 4,4 homicídios para cada grupo de 100 mil mulheres.

    Na sexta-feira passada, os membros da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPI) do Congresso Nacional encerraram a etapa de visitas e diligências nos estados. A previsão é que o relatório final da senadora Ana Rita (PT-ES) seja finalizado em março, quando é comemorado o Dia Internacional da Mulher.

    Na Bahia, a visita da comissão ocorreu no mês de julho e, na época, foi constatado que o atendimento das mulheres vítimas de violência é comprometido pelo déficit de funcionários, equipamentos públicos e a falta de capacitação de quem trabalha diretamente com as vítimas.  Dados fornecidos à CPMI revelam que na Vara Especializada de Atendimento às Mulheres de Salvador tramitam mais de 10 mil processos.

    Correio

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