Após superar choro, críticas e desconfiança no Timão, Love manda recado

dscn1321_1A capa que protege o celular de Vagner Love diz muito sobre o atacante que deu um bico na má fase e se tornou goleador do Corinthians – e vice-artilheiro do Campeonato Brasileiro – com 14 gols marcados na campanha do título alvinegro.

Ainda com tranças azuis da época do CSKA, da Rússia, Love aparece abraçado e beijando a mulher, Lucilene, com quem vive desde 2010. Foi ela quem chorou pelo jogador após uma crítica e o fez prometer que daria a volta por cima em seu momento mais difícil no clube.

– Cheguei em casa e ela estava chorando por algumas críticas muito pesadas na época. Aquela cena me magoou muito. Dias depois, teve o jogo contra o Cruzeiro. Dois gols, ganhamos, o time começou a decolar, e decolei junto. A fase começou a virar – contou o atacante.

Love lembrou a história em um papo de 30 minutos com a reportagem do GloboEsporte.com. O atacante se apegou muito à família – principalmente Lucilene – para superar as críticas. Mostrou vontade de brilhar na Taça Libertadores e avisou que, hoje, não é interessante trocar o Timão por um mercado alternativo como a China, onde já atuou pelo Shandong Luneng.

– É claro que vale a pena ficar. A não ser que seja uma coisa muito absurda. Quero títulos importantes. Já conquistei o Brasileiro, é claro que eu quero ficar e ter a chance de ganhar uma Libertadores. E acho que o Corinthians tem chances reais de conquista – analisou.

Dezembro, porém, vai servir apenas para Love curtir as férias. Antes, um desabafo do atacante aos críticos. Algo incomum para quem sempre preferiu responder dentro de campo:

– Só digo que vão ter de me aturar. Sou campeão brasileiro pelo Corinthians.

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Confira abaixo a íntegra da conversa:

GloboEsporte.com: Com qual status você acha que chega neste fim de temporada?
Vagner Love: Chego com o dever cumprido, de ter trabalhado muito, não ter desacreditado de mim mesmo. Chego com um sentimento bom, de que pude contribuir de alguma forma com o título do Corinthians.

Como você acha que a torcida te vê hoje?
Com muitos elogios, principalmente depois dos gols nos últimos jogos, do gol do título. Fico muito feliz de receber esse carinho depois de tudo o que passei dentro do clube.

Em algum momento você pensou em desistir? Pedir uma transferência?
Não. Se eu desistisse, as coisas não iriam acontecer. Se eu colocasse isso na cabeça, aí que as coisas não aconteceriam mesmo. Só dependia de mim, de fazer o trabalho bem feito, de fazer o que sempre fiz em outros lugares. Eu não tinha de provar nada para ninguém, mas tenho minha autoestima. Sabia que podia dar a volta por cima, mas só faria isso dentro de campo e trabalhando. Foi o que fiz. Recebi todo o apoio de jogadores, comissão técnica, e isso fez com que eu não desistisse.

Qual a sua relação com o gol?
Eu me cobro muito, fico chateado quando não marco. E fico vendo onde posso melhorar, onde eu errei por não ter marcado. Faço minha autocrítica, vejo onde errei, para que eu acerte durante a semana e melhore durante o jogo.

Períodos longos sem gols mexem mesmo com a cabeça?
É inevitável, mas é aí que entra a personalidade, a bagagem. Tem jogador que se deixa levar pela fase ruim e não consegue melhorar. Com a experiência que eu tenho, matei no peito e fui em frente. Sabia que poderia fazer diferente e ajudar de alguma forma.

img_4932_1Mesmo sendo experiente, precisou da ajuda de alguém nesse momento?
Família. É quem está perto de você o tempo todo. Se você chega em casa triste, mal, é minha esposa que está comigo todo dia. É ela quem pega essa carga positiva, ou negativa. Às vezes, as pessoas que estão em casa sofrem mais do que nós. Minha mãe e minha irmã também ajudam, mas para minha esposa foi muito diferente, porque ela nunca tinha me visto em má fase. Estamos juntos desde o fim de 2010, então isso foi muito novo para ela. E no Brasil ela entende tudo. Na Rússia, se falassem mal, ninguém ia entender mesmo (risos).

O afastamento para retomar a forma foi o momento mais difícil na temporada?
Não, na verdade foi o fundamental para eu melhorar. Se eu estivesse na minha forma física ideal, conseguiria fazer a diferença. Foi o fundamental. Nenhum bicho de sete cabeças. Para mim foi bom ter treinado sozinho, ganhado condicionamento físico. Quando voltei, estava competindo de igual para igual, no mesmo nível.

NOTA DA REDAÇÃO: em maio, Love passou 15 dias só treinando para aprimorar a forma física. Ele vinha em baixa após a eliminação do Corinthians na Taça Libertadores.

Teve algum momento em que sua mulher te ajudou mais no ano? 
Na verdade, eu cheguei em casa certa noite e ela estava triste e chorando por tudo o que estava acontecendo, por algumas críticas muito pesadas na época. Aquela cena me magoou. Minha mulher não precisava passar por isso. Ela não está jogando, mas sente, é o tal negócio da carga positiva e negativa. Eu não poderia mais ver isso.

Você se lembra qual crítica a fez chorar?
Lembro, lembro perfeitamente. Nunca mais vou me esquecer disso: o Luciano (atacante do Corinthians que se lesionou em agosto) manco é melhor do que o Vagner Love com as duas pernas. Nenhum jogador, nenhum ser humano merece essa crítica. É teu trabalho. Não posso fazer uma crítica desrespeitosa a você. Para mim foi desrespeito. A pessoa falou na quinta e só foi se retratar na segunda, depois que fiz dois gols no Cruzeiro. Foi muito tempo. Se ele quisesse se retratar, teve oportunidade de fazer antes. Enfim, está valendo.

Você acha que sofreu críticas mais pesadas do que merecia? Sente-se “vingado” depois do bom campeonato?
Tenho certeza de que sim. Críticas construtivas são válidas, mas é muito fácil qualquer um falar um monte de coisas sem ter noção. Fiquei chateado, mas em nenhum momento fui responder na imprensa, nunca fui disso. Só poderia responder dentro de campo. As críticas viraram, agora elas têm de falar bem de mim. Muita gente teve de engolir seco e rasgar a garganta para falar de mim. Mesmo assim, algumas críticas me deixaram muito chateado. Não sou de ficar falando muito, mas às vezes certas pessoas falam muitas coisas.

rib6230Quais críticas você considerou construtivas?
Diziam que eu não estava num momento bom, e eu reconheço isso. Falaram que eu precisava entrar na forma física ideal, vinha do futebol da China, de 50 dias de férias. Não tinha como perder tudo em uma, duas semanas. Precisava de uma readaptação. Essas críticas eu recebi numa boa, porque estes sabiam que já fiz meu nome e não preciso ficar provando nada para ninguém. Eu só precisava mesmo de uma readaptação.

E em que ponto você acha que iniciou a volta por cima no Brasileirão?
Foi o jogo contra o Cruzeiro (vitória por 3 a 0 na arena). Ali eu já vinha bem fisicamente, treinando muito, e tive uma nova oportunidade de ser titular. Infelizmente o Luciano se machucou, tenho um carinho muito grande por ele. Fiquei triste, mas era uma nova chance que eu tinha. Estava muito preparado, concentrado no que tinha de fazer. A partir dali, tudo começou a dar certo. Dois gols, ganhamos o jogo, o time começou a decolar, e decolei junto. A fase virou.

Na hora do gol do título, contra o Vasco, deu vontade de desabafar?
Às vezes até dá essa vontade, e pessoas próximas, amigos, etc, pediram para eu chegar e bater de frente. Só digo que vão ter de me aturar. Sou campeão brasileiro pelo Corinthians. Aquele gol contra o Vasco ajudou o Corinthians a ser campeão brasileiro, eu contribuí bastante e tenho uma parcela nesse título.

A saída do Guerrero foi boa para você, não?
Para todos os atacantes (risos). Claro que queríamos que ele ficasse, era importante, mas cada um escolhe seu destino e sabe o que tem de fazer e para onde ir. Foi bom para mim, para o Luciano, Romero, todos tiveram oportunidades e aproveitaram. A saída dele até que foi boa.

Você tem vivência, bagagem, e agora está fisicamente bem. Pode ser o cara na Libertadores? É hora de “devolver” a eliminação de 2010 para o Flamengo?
Já retribuí, já paguei essa dívida (risos).

NOTA DA REDAÇÃO: em 2010, Love fez o gol da derrota rubro-negra por 2 a 1 para o Corinthians, no Pacaembu, que valeu a classificação dos cariocas às quartas de final da competição sul-americana.

E o que você espera da Libertadores em 2016?
O Corinthians tem chances de brigar, fomos eliminados neste ano por causa de uma partida ruim contra o Guaraní, do Paraguai. Aprendemos muito, e na derrota se aprende ainda mais. Temos de estar concentrados o tempo todo. Depois das eliminações na Libertadores e no Campeonato Paulista, o Tite conseguiu fazer o time ficar mais focado, jogo a jogo. Podemos levar isso de experiência para o próximo ano. O Corinthians vai estar bem forte nesse sentido.

Seu contrato vai até julho do ano que vem. Quer ficar? Já foi procurado para renovar?
Não teve nenhuma conversa, ainda há outras situações a serem resolvidas. No ano que vem vamos sentar, conversar e prolongar por mais tempo. Estou feliz aqui, fui muito bem tratado por todos, não tenho do que reclamar. Só tenho a agradecer ao Corinthians por ter voltado a jogar em alto nível no Brasil.

Vale a pena ficar e abrir mão de propostas melhores de um centro alternativo, como a China?
Eu gosto de viver o momento, não sei o que vai acontecer. Vou curtir as férias, depois vamos ver o que acontece, ver se o Corinthians tem intenção de renovar comigo ou não. São conversas mais para frente. Só quero terminar o ano tranquilamente.

Mas vale a pena ficar?
É claro que vale a pena ficar. A não ser que seja uma coisa muito absurda. Muita gente fala que saímos para ganhar milhões, mas também preciso pensar na família. Tenho cinco filhos, quer dizer, o quinto está vindo agora. É muita boca para alimentar. Podemos pensar, mas como vivi uma fase muito boa dentro do Corinthians, estou com minha cabeça aqui. Quero títulos importantes. Já conquistei o Brasileiro, se a Libertadores puder vir, é claro que eu quero ficar e ter a chance de ganhar. E acho que o Corinthians tem chances reais de conquista no ano que vem.

Tem vontade de ser um protagonista nessa competição?
Sim, muita vontade. Todo jogador tem essa vontade, ainda mais no Corinthians, onde tudo é três, quatro vezes maior.

Sonha com um reencontro com Palmeiras e São Paulo?
É bom para o futebol brasileiro ter times competitivos. Espero que os brasileiros estejam bem, até para uma possível final. Seria legal, muito bom fazer gols nesses rivais. É algo para ficar sonhando. Um sonho que pode virar realidade.

Você falou do quinto filho que está por vir. Nasce quando?
É uma menina, a Alice. Nasce no fim de fevereiro, início de março. Minha esposa está grávida de seis meses e duas semanas. Mais uma boquinha. Eu quero dois filhos, um casal, com ela. Já tenho quatro (de relacionamentos anteriores). Se chegar um menino depois, a gente encerra.

O apelido Love não é por acaso…
(Risos) Mas o Vagner Love, hoje, está mais do que aposentado.

E o visual? Promete algo diferente para 2016?
Olha, já me perguntaram isso, se vou voltar diferente. Acho que vou voltar igual. Depois de muitos anos de tranças, o cabelo deu uma quebrada legal. Então vamos deixar assim (risos).

Você é do samba. Alguma música define sua temporada?
Como diz o Tite, é o “Poradão”. O “Porradão” esteve em todo lugar e nos marcou muito. Foi um talismã nosso. Sempre que chegávamos no estádio era a música que tocava. Acabou dando tudo certo. Ano que vem tem mais porradão.

Fonte: Globoesporte.com (Fotos: Marcos Ribolli e Marcelo Fraga)