Bahia pode registrar 2.500 casos de câncer de mama apenas em 2014

outubro-rosa-cancer-de-mama1Com a previsão do surgimento de 57.120 novos casos de câncer de mama em todo o Brasil, destes 10.500 no Nordeste e 2560 na Bahia, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer, e levando em conta que 10% dos pacientes que apresentam os tumores malígnos têm histórico familiar da doença é preciso ficar atento.

Silencioso, rápido e traiçoeiro, o câncer de mama mata milhares em todo o mundo, sendo o mais recorrente do planeta. Especialistas e mulheres que já apresentaram quadros graves da doença e conseguiram escapar da morte, aconselham: o diagnóstico precoce faz toda a diferença na luta pela vida.

O risco de uma mulher apresentar câncer de mama até os 70 anos é de 12%, mas há fatores que podem aumentar ou diminuir esta estimativa, conforme afirma o oncologista clínico da Clion Rodrigo Santa Cruz Guingalini. “Mulheres com histórico familiar, por exemplo, têm chances maiores de apresentar a doença, antes mesmo da idade mais comum de aparecimento do tumor”, explica Rodrigo, que também é oncogeneticista do grupo CAM.

Nas mulheres o tumor se manifesta na mama a partir dos 50 anos, idade em que é recomendado o início do rastreamento da doença anualmente, através do exame da mamografia.

Já as mulheres que apresentam histórico familiar da doença, possuem grande predisposição  genética para o aparecimento dos tumores, o que requer um  acompanhamento médico mais precoce. “Nestes casos, é importante procurar um aconselhamento genético já aos 25 anos para ter ciência das probabilidades e, com base no que for descoberto, iniciar o rastreamento mais cedo, com a realização  de mamografias e ressonâncias magnéticas anuais”, continuou o especialista.

Ainda segundo ele, a descoberta precoce sobre a predisposição do aparecimento da doença pode inclusive impedir o surgimento do tumor,  através do uso de remédios ou da cirurgia redutora de risco, como fez a atriz hollywoodiana Angelina Jolie, quando descobriu que tinha 87% de chances de apresentar câncer de mama.

Histórico familiar

Embora aumente as chances de aparecimento de células cancerígenas, ter histórico familiar não significa  que todos da família devam apresentar a doença antes dos 50 anos. “ Existem critérios que elevam a possibilidade, como a incidência em mais de uma pessoa, o aparecimento de tumores malignos em outras partes do corpo além da mama, como o de ovário, e  até mesmo o diagnóstico do câncer de mama em algum homem na família, que é raro, mas acontece”, esclarece Guingalini.

Este foi o caso da professora Livia Maria Galvão  de Melo Lemos, 59 anos. Das seis tias por parte de mãe, três morreram de câncer de mama, outras duas tiveram a doença e sobreviveram após o tratamento para a retirada dos  tumores. Já sua mãe, embora não tenha apresentado o mesmo tipo da doença, também faleceu com um tumor maligno no pulmão. Com amplo histórico familiar, ela começou a rastrear a doença antes dos 40  anos e aos  45 descobriu um nódulo malígno já perceptível ao toque.

“Eu fazia a mamografia todos os anos, desde que minha mãe morreu de câncer. No entanto, nem o exame foi capaz de visualizar o caroço que cresceu no quadrante superior de uma das minhas mamas”, contou a professora que teve de se aposentar após o aparecimento da doença.

Ela descobriu o nódulo ao fazer o autoexame em casa. “ Senti o caroço, conversei com minha família e fui novamente ao médico refazer a mamografia, que mais uma vez, não visualizou. Insisti com a ressonância magnética que constatou o tumor, já em uma fase moderada”, conta. Aos 45 anos, Livia fez a retirada de parte de uma das mamas, passou por tratamentos de radioterapia, ainda faz uso de medicamentos para o não reaparecimento de novos tumores, mas ao contrário de vários familiares, venceu a doença.

Fatores de risco da doença

Além da questão genética, especialistas listam outras situações e fatores de riscos que fazem aumentar e muito a possibilidade de uma mulher desenvolver o câncer de mama. Entre eles, estão o uso do tabaco, o consumo de alcool, a obesidade e o sedentarismo. Mulheres que menstruam muito cedo ou que chegam a menopausa tardiamente também têm maiores chances de adquirir tumores malignos. Estudos apontam que esta relação está ligada  diretamente a maior produção de estrogênio durante a vida.

Quem faz reposição hormonal também têm maior probabilidade de obter câncer de mama, além de outras doenças. Para reduzir os efeitos da menopausa, Guingalini aconselha tratamentos alternativos com antidepressivos, alimentação direcionada e exercícios físicos.

“Em casos extremos aconselha-se a reposição de hormônios, mas com baixa dosagem e por menor tempo possível”, afirmou, destacando que mulheres que tiveram câncer são proibidas de fazer este tipo de tratamento, caso contrário, estariam estimulando o aparecimento de novas células cancerígenas.

Ainda por conta da produção do estrogênio, mulheres que têm filhos e  aquelas que amamentam por muito tempo têm menores chances de serem surpreendidas pela doença, já que ficariam meses ou até anos, sem menstruar. Se estas condicionantes ocorrem antes dos 30 anos, os riscos caem ainda mais, afirmam especialistas.

Autoexame não é o método de diagnóstico mais indicado

A falha na mamografia  e a descoberta do caroço através do autoexame, como aconteceu com Líva devem ser consideradas exceções e não regras. Especialistas da área questionam o uso do autoexame como único meio de diagnóstico da doença e o oncogeneticista da CAM explica o porquê.

“O autoexame só detecta o câncer quando ele já está palpável. O ideal é que a doença seja identificada quando oferece o menor potencial de risco ao paciente”, afirmou, lembrando que, quando detectado precocemente e sem ter se disseminado para os gânglios axilares, as chances de cura da doença é de 80%.

“Quando o diagnóstico é tardio e o câncer se espalha para outras partes do corpo, não há cura, mas sim um tratamento ininterrupto para aumentar o tempo de vida do paciente. E justamente por isso é tão importante realizar os exames médicos para detecção da doença”, ressaltou o especialista.

Também esclarece que, entre as diferenças entre o tumor malígno e o benígno está a capacidade que o primeiro possui de se espalhar para outras partes do corpo, característica que o segundo não tem, embora suas células também sofram mutações e cresçam de tamanho.

Constatado o tumor maligno, especialistas e pacientes têm quatro armas para combater a doença: a cirurgia, a radioterapia, a hormonoterapia e a quimioterapia. Descoberto precocemente, a cirurgia é indicada em todos os casos e geralmente é combinada com tratamentos posteriores.

O oncogeneticista do grupo CAM conta que 80% dos casos de câncer de mama dependem do estrogênio para se desenvolver, logo, o tratamento com anti-hormônios (hormonoterapia) é bastante utilizado nestes casos. “É como se nós retirássemos o alimento do câncer, aquilo que ajuda ele a se desenvolver mais rápido”, explica.

Já a radioterapia é um tratamento local,  mais indicado quando parte da mama é preservada após a cirurgia. Geralmente é utilizado para a destruição de possíveis celulas tumorais que tenham permanecido no local afetado.

Mais intensa e com muito mais efeitos colaterais, a quimioterapia é utilizada em casos de tratamentos a tumores grandes, mesmo após a cirurgia, e também é o método adotado para diminuir a possibilidade de disseminação do problema através da metástase.

Nos casos onde a doença se espalha para outros órgãos, este tratamento, unido à hormonoterapia, são as únicas maneiras  capazes de aumentar o tempo de vida  do paciente. “ A evolução destes tratamentos faz com que alguns pacientes vivam como se tivessem uma doença crônica. Os avanços na ciência possibilitaram que hoje uma pessoa que teve o câncer em metastase viva até 15 a 20 anos com o auxílio de tratamentos. (Tribuna da Bahia)