Baiana que perdeu três filhos para o tráfico é agredida em velório de caçula

RTEmagicC_32b0932561.jpgLícita ou não, droga sempre foi sinônimo de violência e tragédia na vida da manicure Claudijane Miranda dos Santos, 38 anos, que sepultou na quinta-feira (14) Renê Miranda dos Santos, 18, o terceiro de seus três filhos perdidos para o tráfico.

Raptado, segundo testemunhas, por traficantes da região de Águas Claras em Salvador, e morto a tiros por uma suposta dívida de drogas, Renê era fruto de um relacionamento abreviado pelo vício no álcool.

“O pai dele era alcoólatra e me agredia quando estava bebendo. Eu cheguei a registrar queixa na Delegacia da Mulher e nós nos separamos, mas ele continuou me perseguindo, usando Renê como justificativa”, disse, explicando o motivo de o rapaz ter sido criado pela avó paterna.

Antes de perder os outros dois filhos – André Luís, morto em 2011, e Edvandson, assassinado em 2012 –, as drogas também já haviam marcado a ferro e fogo a vida de Claudijane. Há 8 anos, ela perdeu o irmão Claudemir Duarte de Miranda, 24, que roubava para sustentar o vício em drogas ilícitas.

RTEmagicC_manicure_x1.jpgEle foi assassinado por outro irmão, Fábio Miranda da Mata, hoje com 32 anos, quando tentava roubar um televisor, que  seria trocado por entorpecentes. “Na época, tinham três televisores na casa de meu pai, e meu irmão (Claudemir) tentou roubar uma para vender em troca de drogas. Foi aí que Fábio matou ele”, recordou.

Resumindo a rotina de tragédias dos últimos anos, contou que sua família está cada vez mais desunida. “A maioria agora só se encontra em velório”, comentou. No de Renê, ontem, Claudijane chegou a ser agredida por parentes paternos do rapaz. Por causa da confusão, não pôde ficar até o final do sepultamento.

Agressões

Horas antes das agressões, pela manhã, recebeu nossa equipe na casa de parentes, para onde foi após carregar os últimos pertences que restaram. A casa na Rua Santa Tereza, em Águas Claras, foi deixada para trás, por conta do medo de represália dos assassinos do seu caçula.

Enlutada, contou um pouco mais de sua história, um autêntico drama que registrou outro triste capítulo na manhã de ontem, quando viu o corpo de seu filho amarrado e baleado em um matagal em Simões Filho. Nada tirava aquela imagem da sua cabeça e somente as lágrimas puderam traduzir o que as palavras não foram capazes de explicar.

Inexplicável também foi o saque à sua casa, onde vivia nos últimos seis meses com o filho e um amigo dele, Ricardo Santos Santana, 24, também raptado na noite de terça  e encontrado morto na Estrada do CIA.

“Quando cheguei do hospital, já encontrei a casa toda revirada. Roubaram TV, DVD, 300 reais e até perfumes”, relatou. Na lista de desfalques entraram até os animais de estimação: o pitbull Bruno e um passarinho. Sob escolta policial, Claudijane conseguiu recuperar apenas geladeira, fogão e o que restou da mobília, tudo levado para a casa dos familiares.

Família paterna de René agride mãe do jovem durante o velório

Ao chegar no velório do filho, a manicure Claudijane Miranda dos Santos, 38, foi recebida com gritos de ofensa pela família paterna de Renê, encontrado morto na quarta-feira.

As tias e o avô do rapaz se incomodaram com a chegada de repórteres no local e atribuíram a presença da imprensa a Claudijane.

Uma irmã do pai de Renê – Ronaldo dos Santos, que, segundo ela, não estava presente – deu um soco no rosto da manicure, assim que Claudijane se debruçou sobre o caixão, aos prantos.

“Ela bateu no meu ouvido e eu caí em cima do caixão. É muita falta de respeito. Eu sou a mãe”, disse.

Amigas e parentes de Claudijane a defenderam e o tumulto foi generalizado. “O avô dele foi para me enforcar e uma senhora tirou ele de cima de mim”, contou a estudante Rafaela Miranda, 14, prima de Renê.

Uma amiga de Claudijane também foi agredida e saiu do cemitério em seguida. No meio da confusão, o caixão quase foi derrubado. “Tive que segurar”, disse Rafaela. Segundo a estudante, a família paterna é evangélica e culpa a manicure pela entrada dos filhos no mundo do crime.

“Eles dizem que ela morava com bandidos e por isso os filhos foram para o mau caminho”. Os parentes do pai de Renê não quiseram falar com a imprensa.

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