Cinthia Rodrigues – Pais não têm espaço para participar da escola

cinthiaOs educadores têm razão em reclamar que a atenção dos pais à escola dos filhos deveria ser maior. A falta de acompanhamento das famílias endossa o desinteresse dos alunos pelo estudo e dos políticos por investimentos na área. Mudar isso, no entanto, exige esforços de todos e não apenas dos pais. Neste primeiro ano como mãe de alunos percebi que participar é mais difícil do que se imagina.

Espaços institucionalizados existem, mas de fato, não. Sabe aquele envelope pomposo recebido de um parente distante que se sentiu obrigado a lhe chamar para o casamento? É mais ou menos isso, só que no caso das escolas não me refiro aos convites para festas – estes são calorosos e coloridos relembrados pelas professoras reiteradamente. O chamamento feito sem olho no olho ou perceptível vontade de receber é exatamente o que seria para a efetiva participação na educação.

Em teoria, os pais são parte fundamental de dois importantes órgãos auxiliares da gestão de cada unidade: a Associação de Pais e Mestres (APM) e o Conselho de Escola. Em ambos é obrigatório ter familiares inscritos em proporção similar a de educadores. No começo do ano, quando os gestores têm dever de informar quem serão os membros, as escolas atraem os nomes necessários. Depois, sem a necessidade de quórum, não os cultivam.

Tenho até um “cargo” de vice-presidente do conselho no centro de educação infantil em que meus filhos estudam, mas perdi duas reuniões simplesmente por não ter visto o agendamento afixado em um painel de recados na entrada com poucos dias de antecedência. No começo, me culpava e procurava a direção para me informar do que foi conversado, mas com o tempo aprendi que os encontros têm pauta pré-definida tomada por questões burocráticas. As votações ou são óbvias (como a autorização para compra de uma bomba para encher bexiga de R$ 30) ou dizem muito mais respeito aos funcionários do que a pais e a alunos (como a divisão do horário de trabalho dos docentes em uma festa). Logo as mães – que faltam em seus trabalhos e organizam a família para participar – se perguntam o que fazem ali.

Comentei isso com a equipe gestora na última reunião quando discutíamos o novo regimento escolar que todas as unidades estão preparando a pedido da Secretaria de Educação. A diretora e a coordenadora pedagógica me explicaram que já houve avanços em relação a um passado recente e se mostraram abertas a ideias de como tornar a participação mais convidativa.

Para refletir sobre as possibilidades, acho que é fundamental responder a uma pergunta: afinal, por que a presença dos pais importa? Para cada resposta, pode-se buscar diferentes soluções para criar espaços efetivos de participação.

Educadores que esperam aumento da importância da escola para a família, podem pensar em formas dos adultos participarem das aulas. Encontrar modelos em que os pais possam ser monitores ou fazer uma leitura na sala dos filhos, por exemplo. Se a ideia é que os responsáveis saibam mais sobre a rotina escolar do filho, talvez a comunicação possa ser melhorada e intensificada com o compartilhamento real dos problemas e dos sucessos, não para comunicar ou coibir, mas em busca de parceiros na solução. Quem pensa que a aproximação com a comunidade traz benefícios, pode organizar projetos que envolvam o entorno e aproveitem conhecimentos e recursos humanos da vizinhança, etc.

O importante é que os pais possam se perceber úteis na prática e não apenas um nome para atender a imposições legais disfarçadas de democracia.

Cinthia Rodrigues é Jornalista de Educação e mãe de alunos matriculados na rede pública de ensino.
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