Corda no pescoço: Baianos estão no limite do endividamento

RTEmagicC_endividados.jpgOs relatos dos primeiros consumidores atendidos, ontem, no Feirão do Nome Limpo refletem a história recente da economia brasileira ao opor facilidade de acesso ao crédito à capacidade de pagamento de famílias recém-admitidas na classe média e, portanto, sem noções de educação financeira necessárias para lidar com planejamento, crédito e apelo ao consumo. Depois do aprendizado causado por situações adversas, a adoção de novos comportamentos por estes consumidores que vão impactar na perspectiva do país.

Pesquisa divulgada pelo site Guia Seu Bolso (guiabolso.com.br) ajuda a entender como os relatos abaixo se entrelaçam com a história econômica do país e por que depois de dez anos de crédito facilitado, o maior interesse dos consumidores é pagar débitos. Este movimento, segundo Luiz Krempel, planejador financeiro e coordenador do pesquisa, resultará nas quedas da inadimplência e de compras futuras.

O primeiro a chegar ao Feirão foi Samuel Oliveira. Ele saiu de casa, em Cosme de Farias, às cinco da manhã. Viajou uma hora e esperou mais duas até o portão abrir. No bolso, dívidas em aberto com as lojas Esplanada e Casas Bahia. Atrás dele estava Joadson Silva. Morador da Boca do Rio, Silva pegou seu “carrinho” (um Pegeout 206 2006, comprado à vista por R$ 10.700) e se encaminhou para o Centro de Convenções. Quando saiu de casa, o relógio marcava 6h. Até as 8h30, quando o portão do Feirão abriu, devia R$ 900 às Casas Bahia, R$ 700 à Caixa Econômica Federal e outros R$ 300 ao banco Panamericano.

Demorou todo o dia, mas Samuel conseguiu regularizar sua situação junto ao SPC e à Serasa. Sua dívida com a Esplanada de R$ 900 foi reduzida para R$ 407,50, a ser paga com uma entrada de R$ 104,42 e outras dez parcelas de R$ 30,21. Nas Casas Bahia foi informado que ali só se negociava atrasos no carnê. Dívidas com cartão de crédito teriam de ser tratadas com o Bradesco. Ele procurou uma agência do banco e reduziu sua dívida de R$ 670 para seis prestações de R$ 53 (R$ 318).

Samuel não tem emprego fixo. Ele trabalha com eventos. Quando o mercado estava bom, tirava de R$ 2 mil a R$ 3 mil por mês trabalhando em até quatro festas por mês. Comprou roupas e equipou a residência com eletrodomésticos novos. Porém, a partir do início deste ano, “o mercado ficou ruim e o número de eventos caiu”. Com a renda em queda, deixou de honrar suas dívidas e “sujou” o nome.

O estudo do Guia de Bolso mostra que na Bahia 54% das famílias estão em “Apuros”, que é a classificação dada para as famílias que têm um comprometimento alto da renda com o pagamento de prestações e que gastam mais que recebem. Outras 37% foram classificadas como no “Limite”, quando mesmo com alto comprometimento em prestações se consegue manter o equilíbrio orçamentário sem, contudo, ter uma reserva para situações de emergências, como o desemprego. Só 7% das famílias baianas estão na categoria “Poupador”, que são aquelas que gastam menos que recebem para manter uma reserva. Ainda menor, 2%, é o número das apontadas como “Investidor”, que é para quem tem reserva de emergência e que continua poupando sobras orçamentárias.

Impulso
Joadson era motorista quando perdeu o emprego em outubro de 2011. Por impulso, comprou uma série de eletrodomésticos. Depois, com o fim das parcelas do seguro desemprego, passou a escolher o que iria pagar. Fez novos empréstimos e acabou negativado.

Neste final de ano, está empregado como agente de portaria e vai usar o 13º para limpar o nome. Conseguiu reduzir juros e fechou acordo de R$ 382 com as Casas Bahia, R$ 407 com a Caixa e de R$ 172 com o Panamericano. “Agora aprendi minha lição. Vou trabalhar dentro do possível para evitar nova situação como esta”, falou. Atitude diferente da de Samuel, que afirmou que vai fazer compras natalinas e que já pensa nas roupas que vai dar para suas meninas.

De  acordo com os dados do Guia Seu Bolso, em relação ao orçamento das famílias brasileiras, 71% delas disseram faltar dinheiro para fechar o mês. Outras 13% afirmaram sobrar pouco – menos 8% – e 16% dos entrevistados falaram que a sobra da renda mensal supera mais de 8% dos seus gastos.

Feirão do Nome Limpo espera atender 50 mil inadimplentes
Duas mil pessoas estiveram ontem no Feirão do Nome Limpo, evento realizado no Centro de Convenções destinado a renegociações de dívidas para a recuperação do poder de crédito de consumidores. A expectativa dos organizadores é a de que 50 mil pessoas sejam atendidas até o sábado, quando a procura deverá ser bem maior.

Oito empresas mantêm estandes no local: Caixa Econômica, Panamericano, Embasa, G.Babrbosa, Avon, Casas Bahia, Leader e Esplanada. De acordo com experiência de anos anteriores, até 80% dos atendidos regularizam a situação junto ao SPC/Serasa.

Segundo Carlos Machado, diretor-executivo da Federação das Câmaras dos Dirigentes Lojistas, a maioria das dívidas é renegociada com descontos nos juros e com parcelamento. E que a redução depende do montante, do atraso e do histórico do devedor.

Correio 24 Horas