Emocionante: “Meu filho não é uma laranja podre”, diz mãe de bebê com microcefalia

A baiana Suzana Bertolucci, 33 anos, teria muito pouco em comum com a paulista Pamela da Silva Pavanelli, 23. Uma é comerciante, a outra, dona de casa. Enquanto Suzana não desejava ter filhos, Pamela sempre sonhou com a maternidade.

 

 

Caminhos diferentes que nunca seriam cruzados senão por uma coincidência: ambas são mães de crianças com microcefalia. Enquanto Suzana engravidou por acidente da pequena Ana Laura e aprendeu a curtir a ideia de ser mãe na gestação, a gravidez de Davi foi desejada antes mesmo do seu início por Pamela.

Suzana, a baiana de Paulo Afonso, contraiu aos três meses de gravidez o vírus da zika que afetou o desenvolvimento de Ana Laura, nascida há dois meses. Já Pamela, moradora de Itapecerica da Serra, na Região Metropolitana de São Paulo, teve um quadro de toxoplasmose não diagnosticado durante a gestação.

Hoje, as vidas delas são unidas pelo amor e luta pelos seus filhos. Estas são as suas histórias:

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Suzana Bertolucci, 33 anos, natural de Paulo Afonso (BA)

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“Sou completamente apaixonada pela minha filha. Sempre tive medo da responsabilidade de ter um filho, e sempre tive medo de hospital. Por isso, fui prolongando a decisão de ser mãe. Primeiro dizia que ia ter aos 31 anos, depois adiei. Tudo por medo.

Tanto o medo do parto quando o da responsabilidade, porque eu sei que uma criança muda a vida dos pais. E Ana Laura mudou a minha vida totalmente. Só que para melhor.

Descobri que estava grávida no final do janeiro, e não foi algo planejado. Se eu planejasse, era capaz de não ter tido filhos nunca. Mas eu vou te dizer – se eu soubesse que era assim, eu tinha tido antes. É uma sensação tão boa, olhar aquele rostinho brincando, sorrindo, com as perninhas balançando. É maravilhoso.

Com três meses de gestação, tive a Zika, eu e o meu irmão. Estava com manchas no corpo e muita coceira. Mas a gente achou que provavelmente era uma infecção alimentar, porque ainda não tinha muitas informações sobre a zika.

O diagnóstico da Ana Laura só chegou no fim da gestação, no final de agosto. Eu comecei a ter um pouquinho de pressão alta, e a médica solicitou a ultrassom. Lá, descobrimos que a minha neném tinha microcefalia, mas ela não me explicou direito o que era e pediu para que eu procurasse um especialista na capital – em Salvador ou Recife.

Fomos direto no Google e tomamos aquele susto. Receber aquela notícia foi desesperador, ainda mais sem ter muita informação. Na hora, eu me segurei, saí da sala da médica tranquila, mas quando eu entrei no carro não deu pra segurar e desabei.

A gente [Suzana e o marido, Luciano Bertolucci] chorou bastante. Fomos direto para casa e não fomos mais trabalhar, eu não queria ver mais ninguém. E não tivemos muito tempo para nos abalar, porque Laurinha já estava perto de nascer e tínhamos de ver tudo antes.

Acabamos voltando para Salvador, de onde tínhamos saído há um ano para ficar mais perto da minha família em Paulo Afonso. Largamos tudo – emprego, casa, nossa loja de sapatos. Nem pra me despedir de casa ou dos parentes eu voltei até agora.

A Ana Laura nasceu no dia 30 de setembro no Hospital Geral Roberto Santos, onde fui literalmente pedir socorro na emergência da unidade após descobrir o diagnóstico dela, porque não tinha recebido até então nenhuma informação sobre quem podia procurar.

Ela foi uma das primeiras a nascer lá com microcefalia. A situação está grave. Uma enfermeira amiga nossa disse que dos 21 leitos do hospital, sete estão ocupados com crianças com microcefalia.

Os médicos não tinham nos dado muita esperança sobre a sobrevivência da Laurinha, e minha filha ficou um mês internada na semi-intensiva. Eu brinco com Luciano que é como se a gente não tivesse vivendo de verdade enquanto ela estava no hospital.

A gente não via jornal, a gente não via televisão, só acordava, tomava café e saía para ficar com ela. E depois só voltava para dormir. Era muito desgastante. Como deixamos tudo em Paulo Afonso, estamos morando na casa de amigos aqui em Salvador. Uma hora na casa de um, outra hora na casa de outro. Mas eu penso que tem tanta gente pior que a gente, passando por dificuldades piores, então isso nunca nos desanimou muito não.

O que a gente pediu muito a Deus foi para conseguir trazer ela do hospital bem. E conseguimos isso, até antes do prazo, um dia após a Ana Laura completar um mês de nascida.

Quando os médicos falam o que é microcefalia, a gente fica pensando que o bebê vai ser uma criança diferente, paradinha. Mas isso não é Laurinha. Ela é muito ativa, cheia de personalidade e manhas, tem muita energia e muita força. Eu não vejo diferença dela para outra criança. Ela é bem espertinha. Com 15 dias de nascida, ela já levantava o tronco todo.

Meu marido está encantado com ela. O cuidado dela é dividido inteiramente entre nós. Ele é um pai especial, um paizão. Acorda de madrugada para dar a comida dela, tudo. No hospital ela ficou um mês internada, e nós dois ficamos ao lado dela o tempo todo.

Hoje, temos acompanhamento com neuropediatra, e com o pediatra normal. Vamos ter uma consulta com o neurocirurgião, e estamos tentando marcar uma consulta com o fisioterapeuta. Também tentamos vaga para ela no Hospital Sarah, mas não conseguimos.

Eles [os médicos] dizem para a gente que não teve como saber como vai ser o futuro, porque isso afetou o sistema nervoso e neurológico dela. Com estímulos, só Deus saberá dizer o que ela pode fazer. Eu tenho certeza que o nosso amor e a nossa dedicação também ajudam ela, e muito.

Pamela da Silva Pavanelli, 23 anos, fundadora da grupo “Eu amo alguém com microcefalia” no Facebook

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O meu médico do pré-natal foi negligente comigo. Eu peguei toxoplasmose durante a gravidez, mas ele não viu, não pediu os exames. Daí, Davi nasceu e com dois meses foi diagnosticado com microcefalia. A gente foi pego de surpresa, mas a família da gente sempre teve muito amor para dar – eu, meu marido e o meu filho de 6 anos, irmão mais velho do Davi. Eles se dão muito bem, e meu menino sempre me ajuda muito nos cuidados com o irmão.

No começo foi muito difícil porque eu caí em um mundo que eu não conhecia. Davi ficou muito internado assim que nasceu, e os médicos diziam que ele não ia sobreviver. Mas hoje ele vive uma vida normal. Ele ainda não anda, ainda não fala, mas come direito, vai pra escola.

Acabei fazendo um curso de técnica em enfermagem para cuidar melhor do meu filho. Vivo integralmente dedicada a isso. E fiquei triste como a situação dessas crianças com microcefalia está sendo tratada, porque a realidade é outra. Foi daí que surgiu a iniciativa para criar a página de apoio no Facebook, por conta da forma que o governo vem tratando a doença na mídia.

Queremos explicar ao governo que estamos aqui, que existimos, e precisamos de cuidados também. Eles estão colocando aí como se as nossas crianças fossem uma monstruosidade, como se nossos filhos não tivessem esperança, e não é nada disso.

Tem mães que não tem orientação sobre como lidar com um filho com microcefalia. Tem mães que querem abortar, ou que abandonam as crianças porque acham que é algo contagioso. E não é. Nossas crianças são normais, são amorosas. Elas mudam nossas vidas sim, mas para melhor.

Os médicos falam como se nossos filhos fossem coitados. Um deles chegou a dizer que era uma pena o que tinha acontecido, que o meu filho era uma laranja podre. Mas ele não é uma laranja podre. Nossos filhos não são doença. Eles não são contagiosos. A única coisa que eles transmitem é amor.

Fonte: Louise Lobato (Correio24Horas)