Gerson Salvador – “Cansanção” Meu Riacho Alegre e meu umbuzeiro

gersnNa última vez que fui a Cansanção retornei ao Riacho Alegre, que é para mim o melhor lugar que já houve no mundo. Não o Riacho Alegre que encontrei lá, às ruinas, mas as lembranças de minhas aventuras infantis na casa de Mãezinha e Paizinho (meus bisavós Emídia e Francisco Borges).

Esse lugarzinho fica a pouco mais de uma légua da cidade e eu costumava ir na garupa de meus tios Crispim, Amadeu, Beto e Zé, em suas Monark barra circular, às vezes fui com meus primos Fátima e Toinho que me levavam no caminhãozinho do Leonor às sextas-feiras para passar os finais de semana. Eu queria ir na carroceria junto aos outros moleques, mas eu era muito pequeno e a Fafá queria que eu fosse na boleia com o motorista, eu mesmo era ousado e não achava que era pequeno demais pra nada, mas preferia obedecer a perder o passeio . Meus pais deixavam eu ir para a roça, ia para o aconchego dos pais de toda a nossa família.

Lá juntavam-se todos os netos de Mãezinha e Paizinho, era uma tropa! Na hora do café sentavámos às esteiras de palha e Ela distribuía os pratinhos – eu gostava de um azul de plástico em que vinha escrito FAE, era Fundação de Apoio ao Ensino, eu acho, oferecia-nos as bolachas, daquelas do sertão, bolachão, de coco, sete-capas, jogava café-com-leite por cima, eu protestava, não gostava de bolacha molhada, ela dizia que só mesmo eu queria ser diferente dos outros. Adorava quando tinha pamonha e paçoca, enchia a boca de paçoca pra falar “pa-ço-ca” e cuspia na cara de meus primos, era engraçado, eles não batiam em mim por que eu era o menor deles; na verdade eles eram primos mais novos de minha mãe, que engravidou de mim aos dezesseis e me deixou seus priminhos de companheiros de brincadeiras.

riachoUm dia o Narciso e o tio Crispim pegaram um passarinho pra mim, era um coleiro! Um coleiro lindo e cantador, eles trouxeram o passarinho e entregaram na minha mão, era pra eu pegar! Fiquei com medo dele me beliscar e soltei o coleiro, ele voou longe pra fazer suas coleirices e nunca mais mandou notícia sequer.

Os meninos brincávamos de bola, tinha uma bola de meia bem boazinha, eu queria jogar com eles, até que deixavam mas eu acabava ficando no bobo.

Paizinho era sereno, Mãezinha era carrancuda, não tolerava muito minhas reinações, acho que eu era um menino malino mesmo, travesso até. Às vezes quando ela ficava brava eu ia me exilar no umbuzeiro. No alto do umbuzeiro eu era invulnerável, chegava perto do céu. Enquanto a paz não se restabelecesse eu ficava lá à base de umbu verde que fosse. O Quinininho amarrava uma corda no galho mais forte e a gente improvisava um balancinho, não deveria haver no mundo brinquedo melhor para um menino-buchudo.

Uma vez o Toinho ia levar a Fafá nas Barrocas, casa de seu Belau, avô deles, eu me ofereci pra ir com eles, era doidinho para conhecer as Barrocas. Mãezinha não deixou, disse que menino deveria ficar ali com ela mesmo.

Decidido em conhecer as Barrocas, arranquei uma vara de cana-fixe e transformei em um potente-cavalo, quando Toinho e Fafá partiram na estradinha de areia, eu parti os seguindo de perto, e meu potente-cavalo além de me conduzir por terras onde nenunhum menino-buchudo se aventurara, ainda marcava o caminho pro caso de eu precisar voltar pelo rastro. A estradinha era quente mesmo, o sol tava rachando, e eu fui descalço, ai meu pezinho. Depois de alguns pocotós eles pararam no Jatobá, foram tomar água na casa de pessoa amiga. Decidi me revelar: não disse que ia conhecer as Barrocas! Fui repreendido queriam que eu voltasse, eu resolvi não voltar, eles não iam ter coragem de voltar só pra me levar. Segui até meu destino final, quando vi no horizonte as casinhas coloridas as Barrocas! Os meninos foram para casa de seu Belau, eu fui atrás, cheguei lá.

Apeei de meu potente-cavalo, o guardei, entrei na casa de seu Belau, tomei-lhe minha bença, um copo d’água, água de roça barrenta e docinha. Retrocedi.

Voltei seguindo o rastro reto do potente-cavalo. Retornei ao Riacho Alegre como um audaz guerreiro, um Vasco da Gama pra contar a El Rei a sua rota para as Índias. Mãezinha estava na estrada, não retribuiu meu sorriso, tomou meu potente-cavalo, o transformou em vara de bater em menino e o quebrou em minhas canelas! O Borges tava andando de uma lado pra outro caçando o menino, tinha ido nos tanques e na estrada, só tinha achado minhas havaianas. Minha mãe deu razão a ela, ainda disse que eu fui o único dos netos que conseguiu levar um surra de Mãezinha. Um proeza até.

Outro dia estavam todos reunidos na casa de tia Maria – era bem pertinho , lá no Riacho Alegre mesmo. Eu gostava de me aparecer quando via gente. Fui contar umas anedotas, fazer umas contas de cabeça, gostava que todo mundo falasse assim “ô seu Borges, esse seu neto é sabido mesmo”, ele falava também “é esse aí puxou a inteligência da mãe”. Os velhos me perguntaram o que eu quereria ser quando crescesse eu disse que ia ser doutor-advogado. Fui repreendido por tio Beto – o de tia Maria, que era um desperdício! Que advogado servia pra iludir os pobres.

Voltei ao meu umbuzeiro, minha cidadela, e passei a pensar em fazer alguma coisa da vida que pudesse ajudar os pobres e que os velhos lá da roça achassem bonito, pensei lá de cima e voltei a comunicar: vou ser médico! Ei eu vou ser médico quando eu crescer, todo mundo achou bonito! Cansanção não tinha nenhum filho médico e tinha tanta gente doente ali, Paizinho mesmo tinha a “doença do barbeiro”, usava marca-passo e tinha que ir a Salvador para ser atendido. Comecei a ser doutor nesse dia. Queria que Mãezinha tivesse alcançado o dia em que me formei, que bom que Paizinho e minha avó Nira alcançaram, ficaram até orgulhosos.

Tenho pensado sobre esse mundo de coisas, na janela de casa olhando a metrópole, com saudade dos noites em que via o céu mais estrelado do mundo, a fogueira, o povo contando os causos e lá na frente as luzes de Cansanção brilhando, piscando como estrelinhas. Saudade dos poucos meses de chuva em que o riachinho seco enchia de água e tinha até piaba que descia do açude pra gente pegar; saudade do tanque, dos mandacarús, do jeguinho, da pamonha, da paçoca, das vezes que ia caçar com meu pai e me enfiava no meio dos matos para apanhar a caça. Saudade de ser menino-buchudo.

Gerson Salvador de Oliveira É médico, Nasceu em Cansanção, Bahia, vive em São Paulo desde os oito anos, cresceu na Vila Carioca, Ipiranga. Vive as artes da medicina como práticas de liberdade. Desde 2007 mantém na internet o blog: cansancao.blogspot.com.br onde publica constantemente seus artigos.

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