Gerson Salvador – Os principais produtos da terra: a mulher e o homem

gersnO povo de Cansanção se organizou, em sua maioria, em pequenas propriedades onde se praticava agricultura de subsistência e se criava alguns animais – principalmente cabras e ovelhas, bem adaptadas à grande variação de clima. Não houve ali qualquer atividade que possibilitasse a um ou outro uma acumulação importante de capital.

Os produtos da terra: sisal, couros de segunda qualidade, licuri, não encontraram – e não tinham como encontrar, mercados para se tornarem produtos que impulsionassem algum desenvolvimento “capitalista” no local.

Esse caso não é excessão, mas regra em uma parte importante deste país: economia rudimentar, ausência de Estado, população rural, altos índices de natalidade, altas taxas de mortalidade infantil, baixa expectativa de vida… assim, a partir das décadas de 1930 e principalmente 1940, Cansanção passou a fazer parte das localidades que exportaram mão-de-obra barata, para a construção de nosso “Capitalismo tupiniquim”.

Era em São Paulo que se ofereciam empregos, era pra São Paulo o rumo dos varões ao completarem dezoito anos!

Muitos são os relatos de pais que adulterarm os registros de seus filhos para que eles pudessem viajar antes para São Paulo.

Com minha família não foi diferente: durante a década de 1950 meu avô Lúcio, alcunhado de Branco, deixou Cansanção e esteve em São Paulo trabalhando na Construção Civil, enquanto a minha avó Nira (falecida recentemente, Deus a tenha em um bom lugar), sua namorada, o aguardava na roça, para casarem. Os ciclos se repetiram, e vêm se repetindo – foi assim com meu pai e minha mãe também. E o caso de minha família serve para ilustrar a história da grande maioria das famílias daquele lugar e de tantos outros com a estrutura social parecida: exportadora de gentes, para serem os braços que ergueram as catedrais, os edifícios, manipularam os tornos, e encheram as periferias das grandes cidades – em situações de vida precárias, mas menos precárias do que as anteriores.

Exportadora de gentes

Não foi nem é “privilégio” dos filhos de Cansanção, nem da Bahia, nem do Nordeste – essa música serve de parábola para a História de muita gente, da esmagadora maioria da Classe Trabalhadora: o camponês que virou operário, e não pode desfrutar do conjunto de “obras” que surgiram de suas mãos.

Cidadão
(Zé Geraldo)

Tá vendo aquele edifício moço,
ajudei a levantar.
Foi um tempo de aflição, era quatro condução,
duas pra ir , duas pra voltar.
Hoje depois dele pronto,
olho pra cima e fico tonto,
mais me chega um cidadão, e me diz desconfiado:
Tu tá ai admirado, ou tá querendo roubar?
Meu domingo está perdido, vou pra casa entristecido,
dá vontade de beber,
e pra aumentar o meu tédio
eu nem posso olhar pro prédio
que eu ajudei a fazer.

Tá vendo aquele colégio moço,
eu também trabalhei lá,
lá eu quase me arrebento,
pus a massa, fiz cimento, ajudei a rebocar.
Minha filha inocente , vem pra mim toda contente:
Pai vou me matricular,
Mas me chega um cidadão:
Criança de pé no chão,
aqui nao pode estudar.

Essa dor doeu mais forte,
por que que eu deixei o norte,
eu me pus a me dizer, la a seca castigava
mas do pouco que eu plantava, tinha direito a comer.

Tá vendo aquela igreja moço,
onde o padre diz amém.
Pus o sino e o badalo,
enchi minha mão de calo,
lá eu trabalhei também.
Lá sim valeu a pena
tem quermese tem novena
e o padre me deixa entrar,
foi la que Cristo me disse:
rapaz deixe de tolice, não se deixe amendrotar.
Fui eu que criou a terra, enchi o rio, fiz a serra ,
não deixei nada faltar,
Hoje o homem criou asas
e na maioria das casas
eu também não posso entrar.

Gerson Salvador de Oliveira É médico, Nasceu em Cansanção, Bahia, vive em São Paulo desde os oito anos, cresceu na Vila Carioca, Ipiranga. Vive as artes da medicina como práticas de liberdade. Desde 2007 mantém na internet o blog: cansancao.blogspot.com.br onde publica constantemente seus artigos.