Índios do sul da Bahia ganham viagem para conhecer a Alemanha

indios_da_aldeia_nova_coroaOs indígenas da aldeia Pataxó Coroa Vermelha, que ficam em Santa Cruz Cabrália, perto de Porto Seguro, extremo sul da Bahia, ganharam viagem para conhecer a Alemanha. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (17) pelo governo do estado e confirmado pelo cacique da aldeia Coroa Vermelha, Zeca Pataxó. Quatro lideranças farão a viagem.

Segundo Zeca Pataxó, o objetivo do governo alemão é entender e acompanhar a situação do território indígena, além da saúde e educação, e, junto ao governo brasileiro, gerar benefícios à comunidade. A parceria é vista com muita importância pelos indígenas, que já começaram a preparar a documentação para a viagem.

“Recebemos um e-mail da confederação da Alemanha com o convite. Depois da repercussão da dança, eles [alemães] perguntaram se os índios gostariam de conhecer a Alemanha, e nós aceitamos. Devemos ir no mês que vem. Vão eu e o cacique Sinaldo Goivado, da aldeia Nova Coroa, e ainda vamos fazer reunião para escolher as outras duas pessoas”, conta.

De acordo com o líder da aldeia Coroa Vermelha, o grupo quer mostrar o governo alemão os projetos que eles têm para a população indígena. “Vamos levar um relatório com diagnóstico completo, que não será só da nossa aldeia, é do processo de demarcação [de terras]. Temos alguns projetos da área social para que eles [alemães] possam fazer aqui na aldeia também. O projeto está todo montado e foi elaborado por nós mesmos, com a ajuda de um indigenista que trabalha com índios há muito tempo”, diz.

alemanhatetraRepercussão
Antes de se despedir, a Federação Alemã de Futebol (DFB) deixou para os índios um cheque de 10 mil euros (cerca de R$ 30 mil). Mas, para o cacique Zeca Pataxó, a passagem rendeu também outros beneficios. “Falavam que o alemão é muito frio, mas eles demostraram ser diferentes. Sentavam com a gente, nos receberam, conversaram. Para nós foi um aprendizado muito grande. Eles deixaram esse cheque de 10 mil euros, mas isso vai além dos bens materiais. Eles deixaram um legado de respeito, consideração, de coisas boas para a população não só indígena, mas em geral”, destacou o cacique.

Segundo Zeca Pataxó, o dinheiro será usado para a compra de um carro que ajudará no atendimento médico à comunidade. “Ainda vai levar uns dias pra comprar o carro porque o dinheiro sai da Alemanha e vem pro Brasil. Vem uma pessoa especial que vai retirar o dinheiro”, explica. “Esse carinho deles vai ficar para o resto da vida. Uma coisa que ninguém imaginava, que a Alemanha ia ter esse respeito todo, e eles mostraram isso”, acrescentou.

Fernando Oliveira, secretário de Turismo de Santa Cruz Cabrália, contou que o centro de treinamento usado pelos jogadores será transformado em resort e que os alemães negociam um convênio com algumas instituições do município. “Eles estão vendo um convênio com uma escola municipal, um centro de cultura e uma ONG. Seria uma ajuda de 20 mil euros em um período de quatro anos. Mas ainda não está nada certo”, ressaltou.

Devido ao desgaste ambiental provocado durante o período que estiveram hospedados, os alemães também se comprometeram a reformar um campo de futebol da comunidade de Santo André, povoado da região. “É uma compensação ambiental. Eles poderiam ter dado dinheiro por conta do desgaste ambientel, mas nós sugerimos que eles fizessem essas melhorias no campo”, afirmou Oliveira.

Turismo
Para Fernando Oliveira, a passagem dos alemães também foi importante para desenvolver o setor de turismo na região. “A grande conquista é o reconhecimento. Nós estávamos sobrevivendo à sombra de Porto Seguro, todo o destino se vendia para lá. Agora nós tivemos, com a mídia gratuita, a possibilidade de externar tudo sobre a cidade de uma maneira nunca pensada. É o principal legado que Cabrália herda”, opina.

Oliveira conta que não foi grande o número de turistas que deram entrada no município durante o mês de junho. Segundo ele, a expectativa é que a quantidade de pessoas curiosas em conhecer o local onde a Seleção Alemã se hospedou cresça com o tempo. “Se pegássemos todo o orçamento do município e usássemos para publicidade nós não conseguimos atingir o que conseguimos de mídia gratuita que tivemos agora. O incremento de turistas no período foi baixo, foi mais profissionais e envolvidos no evento. Obviamente nesse verão esperamos deslanchar, até com o turismo de brasileiros que pretendem conhecer esse lugar encantador”, afirma Oliveira.

“Materialmente eles deixaram aquela quantia para a comunidade. Mas imaterialmente, eles deixaram uma projeção histórica para o município. Com essa visibilidade, esperamos colher muitos frutos com o turisto no futuro”, opina também o chefe de gabinente de Santa Cruz Cabrália, Felipe Costa.

Reconhecimento na dança
O contato com os índios ainda rendeu reconhecimento na final da Copa do Mundo. Durante a celebração do título, os alemães fizeram uma dança chamada “anguaré”, realizada para comemorar grandes conquistas, e que foi ensinada a eles pelos índios pataxós.

“Ontem a gente assistiu ao jogo com todo mundo vestido de camisa Alemanha. Alguns estavam vestidos com camisa do Flamengo [que se assemelha ao segundo uniforme alemão] e mostra que nós torcíamos mesmo para eles. Antes do jogo, fizemos uma oração para que eles tivessem força e pudessem ser campeões. E tudo deu certo graças a Deus”, comemorou o cacique Zeca Pataxó.

Com o término da Copa do Mundo e a volta dos alemães para o país natal, resta agora aos moradores de Santa Cruz Cabrália torcerem pelo retorno dos jogadores. “Aqui já está mais movimentado, vindo mais turistas. Pensei que ia esvaziar, mas pelo contrário, as pessoas estão vindo, querendo conhecer. Já bate uma saudade deles porque a gente estava acostumado, e agora temos que esperar mais quatro anos”, conclui o cacique Zeca Pataxó. (G1/BA)