Mais Médicos: profissionais formados fora do país chegam às cidades do interior

RTEmagicC_estrangeiras.jpgFoi com um churrasco para 200 pessoas em uma casa de shows, animado por uma fanfarra de estudantes das escolas municipais, que as médicas cubanas Damara Morejon Duquesne, 46 anos, e Dania Marquez Cabrera, 50, foram recebidas ontem em Araci, a 211 quilômetros de Salvador. Elas vão trabalhar na cidade pelo programa Mais Médicos.

No púlpito do salão nobre da Câmara de Vereadores da cidade, falaram em portunhol. A princípio, os olhares no auditório, que tinha autoridades, jornalistas e um grupo de 50 moradores da cidade, eram de pouco entendimento. Mas Damara tratou de tranquilizá-los: “Não se preocupem, nós vamos nos empenhar para ajudar o povo brasileiro no chamado que nos foi feito”, disse.

No mercadinho em frente a uma das unidades de Saúde da Família de Araci, a dona de casa Ester Ribeiro, 34, ficou um pouco receosa ao saber que os reforços para o posto de saúde não falam português, mas disse acreditar que tudo dê certo. “Vai ser complicado pro povo entender, mas a gente dá um jeito. Fala onde é a dor, aponta. Aqui não é muito bom, falta médico, falta dentista, quase nunca tem ginecologista…”, queixou-se.

Já a comerciante Ana dos Santos, 47, levou as futuras dificuldades com bom humor: “Ave Maria! Quando eu disser que tô com dor de facão, vão ficar é com medo”, brincou. Temores à parte, os cubanos dizem que as dificuldades serão superadas.

“O português é muito parecido com o espanhol. Acredito que, com o passar do tempo, o entendimento vai melhorando”, disse a médica Damara Morejon,  especialista em saúde da família e que já trabalhou cinco anos na Venezuela.

Para a colega Dania Marquez, 52 anos, e 28 de carreira, ela e os colegas farão um bom trabalho. “Sabemos das dificuldades, mas acredito muito que vamos fazer um bom trabalho aqui no Brasil”, declarou ela, que também trabalhou sete anos na Venezuela.

Segundo o secretário de Saúde de Araci, Batista Santiago, os atendimentos devem começar amanhã. “Hoje (ontem) teve a recepção, amanhã (hoje) elas serão apresentadas aos postos de trabalho e às equipes para, na quarta-feira, iniciar os atendimentos”, diz.

As médicas vão morar em uma casa confortável, com dois dormitórios em dois pavimentos, na área central da cidade. O aluguel, de R$ 650, é pago pela prefeitura.

Cartilha
De manhã, o governo do estado promoveu uma cerimônia de encerramento do curso realizado em Salvador, ao qual foram submetidos 67 médicos formados no exterior que vão participar do programa. Desses, 57 vão ficar na Bahia e 56 seguiram ontem para suas cidades (veja boxe).

Nos postos, os estrangeiros ouvirão frases como “dor nos quartos”, “caganeira”, “papeira” e até a famosa “dor chuchada”. Se eles entendem tudo isso? “Ainda não”, disse o dr. Ignácio Garcia Sarduy, que trabalhará em Adustina.

Mas ele diz já estar por dentro, e com boa vontade. “Nós recebemos uma cartilha com frases e expressões usadas pelas pessoas nas cidades para onde nós vamos”, afirmou.

Recepção
Calorosos desde a chegada à capital baiana, há cerca de um mês, os médicos cubanos se disseram mais confiantes com a chegada às cidades.

A sensação de que conseguirão cumprir a missão aparecia no discurso dos cinco médicos que a reportagem do CORREIO acompanhou ontem, em Araci e Tucano.
Além da dupla que ficará em Araci, o casal Juan Ariel del Valle Osoria e Gisela Benavente Acosta e a colega Elidia del Rosário Garcia Roidriguez trabalharão em Tucano, nos povoados de Rua Nova, Arapuá e Quixaba de Santa Rita.

Ajuda
Os problemas que afligem os brasileiros, principalmente no interior, poderão ser apaziguados com o trabalho dos estrangeiros, segundo o prefeito de Araci, Antônio Carvalho da Silva Neto (PSD).

“Era uma carência do município, já que dois dos 14 postos de saúde da família que temos estavam sem médicos”, afirmou o prefeito do município. “Enfrentamos problemas tanto para atrair quanto para fixar os médicos aqui. Quando a gente consegue contratar um profissional, ele fica poucos meses e acaba indo para outro lugar. Mas com essas duas profissionais, as equipes dos postos estão completas, pelo menos por enquanto”, afirmou.

Para o médico Eddi Eduardo Perez Prada, que trabalhará no município de Mansidão, no Oeste do estado, um dos principais pontos de atenção será o caso das doenças infectocontagiosas. Para ele, os casos se agravam pela falta de tratamento.

Eddi e outros colegas concordam em pelo menos dois pontos: o SUS brasileiro é semelhante ao sistema de Cuba, o que deve facilitar o trabalho; e aqui na Bahia doenças erradicadas em Cuba, como a tuberculose, ainda existem.
“Vamos ter que estudar e ter atenção com esses casos, que são muito comuns aqui”, analisou Eddi.

Metade dos médicos tem pendências com Cremeb

Dos 57 médicos estrangeiros que solicitaram registro profissional junto ao  Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb), 56 foram para os 28 municípios onde atenderão, mas apenas 29 profissionais obtiveram a licença.

Segundo o secretário de Saúde do estado, Jorge Solla, as pendências apontadas pelo Cremeb “já foram resolvidas” em 25 casos. São problemas como irregularidades nas fotos, falta de indicação do nome do tutor e supervisor. “Esperamos que todos sejam liberados para atuar até o fim desta semana”, diz.

Os três casos restantes demandam mais atenção, de acordo com o secretário. “São pendências que exigem a retirada de documentos no país de origem dos médicos”, conta.

“Em dois desses casos, foi pedido o envio dos documentos para cá, então os médicos envolvidos também já foram para seus postos”. Um caso, porém, exigiu o retorno do profissional ao país de origem, o do mexicano Antonio Jaldo Silva Ramos

As informações são do Correio 24 Horas