“Matei porque tive vontade”, disse adolescente de 13 anos que tirou a vida de colega de escola

Aos 13 anos de idade, um estudante do 7º ano do ensino fundamental matou sua vizinha, de 14 anos, aparentemente sem qualquer motivo. O garoto confessou ter saído de casa, no Jardim América, para matar dois colegas que o irritavam no colégio. Ainda no prédio onde mora, viu a estudante Tamires de Paula Almeida aguardando o elevador e a atacou, dando-lhe uma gravata e a arrastando para a escadaria, onde a matou com mais de sete facadas. Ele confessou o ato infracional análogo a homicídio, ocorrido por volta das 13 horas, e disse que não conhecia a menina. “Matei porque tive vontade”, disse o adolescente.

Segurando uma faca nas mãos, o adolescente desceu pela escada do 12° andar, onde mora, sem ser visto por ninguém, até o 5° andar, onde Tamires esperava o elevador para ir à escola. O garoto estava armado com uma faca de cozinha comprada um mês atrás com parte do dinheiro que ganhou de presente de aniversário, comemorado no final do mês de junho.

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Sujo de sangue e com a arma na mão, o adolescente deixou o corpo de Tamires no local do crime e foi em direção à escola onde os dois estudavam, no Jardim América, a menos de três minutos do prédio. No colégio ele disse para o inspetor e para a diretora que havia cometido um “crime” no prédio em que morava e os levou até o local.

No edifício, o adolescente mostrou o corpo de Tamires na saída de emergência do 5° andar. A diretora entrou em estado de choque ao ver a cena. O inspetor chamou a Polícia Militar para levar o garoto, que não apresentou resistência. Ele foi levado para a Delegacia de Apuração de Atos Infracionais (Depai), onde assumiu o crime. A faca, apreendida com o garoto, chegou a entortar a lâmina com a brutalidade dos golpes.

Na Depai, o estudante falou com tranquilidade aos policiais sobre como matou Tamires. “Ele está deitado no chão da cela e está tranquilo”, contou um agente. O estudante estava ainda com o uniforme do colégio, sem os sapatos. Por causa do horário e da falta de plantão na delegacia especializada no atendimento a adolescentes em conflito com a lei, ele foi encaminhado pela Polícia Militar para a Central de Flagrantes da Polícia Civil, na Cidade Jardim.

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O delegado plantonista Antônio Ferreira começou o auto de apreensão em flagrante ouvindo os policiais militares que fizeram a condução do estudante e ouviria as testemunhas arroladas: uma vizinha, a diretora da escola e o inspetor, para somente depois ouvir o estudante. Ele foi interrogado nas primeiras horas da quinta-feira 24 de Agosto.

Foi na Central de Flagrantes que o estudante, apresentando nervosismo, segundo agentes da Polícia Civil, confessou que queria matar dois colegas de colégio que o irritavam. Deu os nomes dos dois colegas. Uma adolescente e um colega, e reafirmou que matou Tamires aleatoriamente.

Apesar dos dois morarem no mesmo prédio e estudarem no mesmo colégio, ele disse que não a conhecia. Ela fazia o 9º ano, era uma das melhores alunas da sala e tinha muitos amigos. Ele é retraído, de poucos amigos, taxado como “cara estranho” e cursa o 7º ano.

Logo após matar Tamires, o estudante foi até a escola, onde confessou o ato infracional análogo a homicídio para a diretora da escola e para o inspetor, uma vizinha do prédio encontrou o corpo da vítima na escada do prédio e procurou ajuda nos apartamentos próximos, no quinto andar.

Quem atendeu na primeira porta batida foi a própria mãe da vítima, que ao ver a filha morta, passou mal, e precisou ser socorrida por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgências (Samu). No início da noite ela estava no Instituto Médico Legal (IML) aguardando os procedimentos periciais para a liberação do corpo da única filha.

“Ele não tinha muitos amigos”

Calado, isolado, estranho, indiferente, fechado e de pouco amigos. Essa era a descrição do adolescente de 13 anos, que confessou ter matado a facadas a colega de escola e prédio, Tamires de Paula, de 14 anos.

As informações são dos adolescentes que estudavam no mesmo colégio que os dois, no Jardim América. “Ele sempre foi muito estranho, vivia no fundo da sala ou atrás do pátio”, disse uma garota do 7° ano que estudava com ele. “Aqui ele não tinha muitos amigos, ficava mais sozinho durante o recreio”, lembrou outra aluna.

O mesmo discurso era repetido nos relatos coletados pelo POPULAR no prédio em que moravam. “Eu o via pouco, de vez em quando encontrava a mãe na área de convivência. Não dava para imaginar que algo assim pudesse acontecer.

“Ele passava por aqui de vez em quando, calado, acompanhado por um passarinho no ombro, ou na mão”, resgatou da memória uma vizinha que não quis se identificar em respeito à família. Ela se referia à companhia da ave Calopsita do irmão mais velho do adolescente.

Ele mora com os pais e dois irmãos mais velhos no 12° andar do prédio. A mãe é corretora e o pai mecânico. Poucas pessoas sabiam dar informações mais detalhadas do adolescente devido seu convívio limitado.

Mãe de Tamires tenta encontrar forças para superar a dor

A mãe da adolescente Tamires Paula de Almeida, a recepcionista Maria Paula de Almeida, de 43, diz que não consegue esquecer o dia em que a filha morreu. Ela recorda que viu o corpo dela e se desesperou. “Não vou conseguir esquecer a imagem dela caída na escada”, afirmou.

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Maria Paula conta que não consegue esquecer morte da filha (Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

“Ela morreu sozinha, na escada. Estava tão perto de mim e eu não pude fazer nada. Ela deve ter gritado, pedido por socorro e eu estava a metros dela. Até hoje eu finjo que estou vivendo um pesadelo”, lembrou, emocionada.

A mãe se recordou ainda que protegia a filha de todas as formas possíveis, não permitindo que ela saísse sem supervisão de adultos, ou à noite. Ela conta que tinha muito medo de violência. “Eu não moro em casa por medo de assalto. Não imaginava que estava morando no mesmo prédio que um assassino”, desabafou.

A recepcionista relata que está muito abalada desde então e tem contado com ajuda de parentes e amigos. Ela declara que não consegue mais viver no prédio onde filha foi morta e deve se mudar.

Convencida de que o vizinho premeditou o crime, ela pede para que o autor pague pela morte da filha e tenta entender os motivos do assassinato.

“Não tem motivo nenhum para ele fazer isso. Ela era só uma criança, cheia de sonhos, de vontade de viver. Não o vejo como um doente, vejo como um criminoso. Quero que ele fique preso os três anos, que é o que lei permite. Vou sobreviver para lutar por justiça pela minha filha”, declarou.

Questionada se perdoaria o autor pela morte da filha, ela disse: “Não sei responder isso agora. Ele deu uma facada na boca dela até o queixo. Ele não tirou só a vida dela, tirou a beleza dela também”.

Lembranças

Maria recordou que a filha estava esperando o boletim escolar sair, já que havia combinado com os padrinhos de receber R$ 10 para cada nota 10. Após a morte da adolescente, a mãe buscou os resultados da filha na escola, que comprovam a dedicação dela aos estudos.

“Ela era ótima aluna. Estava sempre lendo, tinha pilhas e pilhas de livros. Ela queria ser psicóloga, já estava se preparando para fazer o Enem. Era uma menina muito boa, tinha uma alma boa”, disse.

Além do esforço na escola, a mãe recorda que a filha gostava muito de se arrumar e incentivava a mãe a se cuidar também. “Ela era ótima maquiadora. Fazia maquiagem nela e falava: ‘Vem cá, mãe’, para fazer em mim também. Só as unhas que eu não deixava ela fazer”, contou.

A mãe recorda ainda que se mudou para o prédio onde moravam pensando na filha, que estava saindo de Pires do Rio para ir viver com ela, em Goiânia.

“Eu morava em outro bairro, era um lugar mais afastado, feio. Pensei que quando ela mudasse para cá ia querer estar num setor mais bonito, por isso comprei esse apartamento. Esse um ano e meio que moramos juntas foi maravilhoso. Éramos só nós, eu estava ensinando ela a cozinhar, porque se quando ela ficasse moça quisesse morar sozinha, já ia saber”, lembrou.

Com informações do G1 e O Popular