“Não aguento mais cantar as mesmas músicas”, desabafa Luiz Carlos

Os anos 1990 estão na moda novamente, e com eles o samba do Raça Negra. A banda paulistana de pagode está na trilha da novela “A dona do pedaço” com um de seus grandes sucessos, o samba-rock “Cheia de manias”, tema de Maria da Paz, personagem de Juliana Paes, protagonista da trama de Walcyr Carrasco.

Para surfar nessa onda, o grupo liderado pelo vocalista Luiz Carlos lançou na noite de anteontem uma nova canção, a bem-humorada “Nego lindo”, com um pocket show em um bar da Zona Oeste de São Paulo. No refrão, a música diz: “Você quer um nego lindo/ Pra fazer você dormir?/ Você quer um nego lindo/ Você quer um nego lindo?/ Seu nego lindo está aqui!”.

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A faixa faz parte do EP “Deezer Sessions Raça Negra”, que inclui versões de outros seis sucessos da banda, com novos arranjos e participações especiais: “Cheia de manias”, “É tarde demais” (com Péricles), “Quando te encontrei”, “Me leva junto com você”, “Deus me livre” e “Você”. O novo trabalho está disponível exclusivamente na plataforma de streaming .

No repertório do show para convidados, além das sete músicas do EP, outros 20 sucessos, como “Te quero comigo”, “Dono do seu beijo”, “Preciso ter alguém”, “Maravilha”, “Extrapolei” e “Vai curtir, vai dançar”. Luiz Carlos e banda mostraram que, embora estejam há quase 30 anos na estrada, não perderam a energia e nem o poder de incendiar e animar o público.

A seguir, o ícone do pagode, vocalista e fundador da banda fala sobre a volta às paradas do samba romântico — se é que ele saiu delas um dia.

Qual é a dificuldade para emplacar uma música nova?

Por mais que façamos coisas novas, temos muito tempo de carreira, as pessoas querem escutar as antigas. Cantei uma nova em um show recente, mas o pessoal não quer saber: “Você não vai cantar ‘Cigana’? Não vai cantar ‘É tarde demais’?”. Por um lado, é legal, porque você pensa melhor no que vai fazer. Por mais que eu tenha fundado o Raça Negra, não aguento mais cantar as mesmas músicas (risos). O nosso patrão são os fãs, então temos que fazer a vontade deles. Porque música nova, tem aos montes.

A que você atribui esse ‘revival’ do samba romântico?
Vejo de forma diferente. Tocamos onze anos na noite mudando as músicas de vários ritmos para samba. Eu via que, quando tocávamos Roberto Carlos, as pessoas gostavam. Então, começamos a fazer músicas mais românticas, e isso pegou. Aquele cara que cantava o samba exaltação — porque não existe samba de raiz, quem tem raiz é planta — começou a colocar mais elementos melódicos. Na época, o samba era aquela coisa de boteco: “o meu barraco caiu, meu dinheiro sumiu…” Samba não era só aquilo, era música popular brasileira. Hoje, o samba virou um show. O Raça Negra, pelo menos, nunca parou.

E essa música nova, ‘Nego lindo’? Não se preocupa que possa ser rotulada de racista por causa do título?
Acho uma grande gozação. O povo tem mania de falar: “Ô, meu nego”. É uma forma de chamar as pessoas carinhosamente. Não há essa conotação racista, porque assumo o que sou, minha cor e minha raça. Já me perguntaram até do nome da banda, Raça Negra. Não tem conotação política, social e nem racial. Lembra minha mãe, porque era a única mulher que me achava lindo. Vão dizer: “Mas esse negão é metido, não?” (risos).

Você é uma pessoa mais fechada. Como lida com isso nesse momento de explosão das rede sociais?
Realmente sou reservado e tímido. A minha vida particular é minha vida particular. As pessoas têm que me olhar como um representante de um estilo musical do Raça Negra.

E a grande oferta de músicas pelas plataformas de streaming, como você avalia?
Acho perigosíssimo. Essa mídia instantânea não deixa você chegar a nenhum lugar. A troca é muito rápida, imediata. O cara faz sucesso aqui, logo depois já tem outro no lugar. Agora, a culpa não é de quem está começando.

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