Marcelio Oliveira: Famílias moderninhas e pais liberais

DSC003082sEssas famílias muito abertas, moderninhas… Hum não sei. Prefiro pais iguais aos meus, que quando iam falar de algo relacionado a sexo vestiam roupa social e tudo.

– Filho, temos uma coisa séria pra conversar com você.

– Fala aí, pai.

É sobre o relacionamento homem e mulher…

Muito nervoso, meu pai, travado.

É, mas melhor assim do que passar por uma situação ridícula como a que eu passei na casa de uma antiga namorada, uma mina com quem sai por uns tempos. A mãe era psicóloga e o pai, advogado. Superliberais. Aos 15 anos a mina já podia até dormir fora, desde que avisasse. Mas nunca tinha aproveitado toda essa liberdade. Era virgem.

– Cê nunca teve vontade?

– Tive, mas não rolou.

– Mas por quê? Teus pais não ficam controlando, né?

– Não, não é isso. Meus pais até que curtiram a ideia. O problema sou eu. Não sei se eu estou madura, entendeu?

Fingi que entendi, mas no fundo, no fundo não entendi nada. Mas naquele momento eu não era o amiguinho conselheiro que compreende tudo. Muito pelo contrário, eu queria era fazer a cabeça da mina pra ver se as coisas iam além dos malhos.

E foi indo. Dois meses depois já tinha rolado praticamente tudo, só faltava uma coisa. Aquela.

E eu insistindo.

Que é isso, Nicinha, cê não confia em mim?

Confio claro, mas eu tenho medo. Medo de não ser legal, medo de me machucar.

– Se machucar? Não, pode deixar, eu vou devagarinho…

– Não, Má, de machucar o corpo não. De machucar o sentimento, você entendeu?!

Cara, que fora. A mina falando de coração e eu pensando em penetração. Desagradável.

Mas não prejudicou nada. Tanto que uma semana depois, a gente estava caminhando, ela parou e me disse na lata:

– Tá bom, eu quero.

– Hen?! Quer o que?!

Eu quero transar com você.

Meu coração disparou. E eu fiquei alguns minutos sem conseguir dizer nada. Os meus pés pareciam ter saído do chão. Por essa, sinceramente, eu não esperava.

– Então, cê não fica feliz? – ela quis saber.

Respondi que sim, claro, mas eu só pensava em descolar um lugar rapidinho, antes que a garota mudasse de ideia. E foi então que, para a minha surpresa, ela botou a família no meio.

– Sabe o que é, Má, eu queria que a minha primeira vez fosse lá em casa.

– Como?! Na tua casa?

– É! Eu, inclusive, até conversei com a minha mãe e ela também achou melhor assim.

– Você disse pra tua mãe?

– Disse. E ela pediu que eu fosse antes ao ginecologista, pra ver o lance de pílula.

Pílula?

Meu, eu quase engasguei. A mina ia ter relações sexuais pela primeira vez e parecia alguém arrumando mala pra viajar: “bronzeador, escova de dentes, xampu… será que faltou…? Aaah, o chinelo”.

E a mãe sabendo de tudo, com certeza contaram para o pai.

Os preparativos levaram um mês, vinte dias de pílula antes da estreia, o médico receitou. Mas chegou o dia, um sábado, ela super decidida e eu quase desistindo do esquema de ir até a casa dela, esperar os pais “saírem pra jantar” e crau.

Não desisti. E foi ai que eu passei pelo ridículo dos ridículos.

Oi, você deve ser o Marcelo, o pai me recebeu.

Depois apareceu a mãe, que eu já conhecia de vista.

O que era pior, os pais da Nicinha, os dois, estavam totalmente à vontade, somente eu é que estava terrivelmente tenso. E fiquei ainda mais tenso quando eles, no meio do papo, resolveram falar sobre a infância da Nicinha, de como ela era frágil quando criança (seria um pedido para eu ir com calma?). Mas logo os dois se despediram e foram embora.

– A gente demora um pouco. Fiquem à vontade.

Fiquei me sentindo um imbecil. Só faltava terem deixado toalhas em cima da cama, que nem motel.

– Má, eu te amo. Você é o cara mais importante que eu já conheci, sabia?!

Uma graça, a Nicinha. Meiga, delicada, mas também insinuante e sensual. Só que naquele dia eu estava tão nervoso que acabei pegando no sono. Fui acordado na manhã seguinte, com a mãe dela batendo na porta para levar o café da manhã.

Posso dizer, com toda sinceridade, que foi vergonhoso. E daquele dia em diante eu jurei pra mim mesmo que, se um dia eu tivesse filhos, seria o pai mais repressor do mundo, pois pai liberal é broxante.

Marcelio Oliveira (Para o Portaldenoticias.net)
Jornalista
Email: marceliojornalista@hotmail.com