Protagonista de filme de Glauber gravado em Monte Santo conta experiências vividas

yonaA atriz Yoná Magalhães é um dos nomes que sofreu uma reviravolta na carreira depois de participar de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, clássico de Glauber Rocha que, nesta quinta-feira (10), completa 50 anos de seu lançamento.

Yoná e os colegas de elenco, como Othon Bastos e Geraldo Del Rey, não faziam ideia de que o filme pudesse se tornar um ícone de uma época para o cinema brasileiro.

A entrada da atriz no filme, no entanto, não foi por acaso. O então marido dela, Luiz Augusto Mendes da Costa, era produtor de “Deus e o Diabo” e foi quem convenceu Glauber a dar a Yoná o papel de Rosa, uma personagem sofrida que lhe proporcionou umas das atuações mais importantes de sua carreira.

Em depoimento ao UOL, Yoná relembra os bastidores do filme gravado na cidade baiana de Monte Santo, sua participação no longa e a experiência do convívio com Glauber Rocha, a quem ela classifica de “meigo” e de “enorme simpatia”.

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“‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ foi um marco no cinema brasileiro e, creio, um marco na carreira de todos que tiveram a felicidade de participar. Glauber Rocha, na época, era um jovem de mais ou menos 20 anos, um gênio que ficaria conhecido e respeitado no mundo inteiro.

Eu estava morando em Salvador, recém-casada com Luiz Augusto Mendes da Costa, um dos produtores do filme. Por essa razão, tive a sorte de interpretar a Rosa. Sim, meu marido forçou minha participação no filme.

Creio que Glauber teria outra atriz em mente, porém se viu levado a me aceitar, cofiando mais em sua habilidade como diretor do que em meu talento. E ele estava certo: criou a Rosa e conseguiu fazer com que uma atriz iniciante, apesar de já ser profissional, realizasse uma grande performance.

O fato de ter ficado em Monte Santo (BA) durante quase um mês, antes de iniciar minha parte na história, deu-me a oportunidade de vivenciar o cotidiano dos que moravam lá e aqueles que vinham da caatinga buscar ajuda na Igreja, que recebia alimentos para serem distribuídos aos mais carentes.

Começávamos a subir o Monte para filmar ainda de madrugada para que pudéssemos aproveitar o dia. Filmávamos até o fim da tarde, quando a luz do dia começava a diminuir. Ventava muito, o que aliviava o calor.

Conheci um Glauber meigo, de voz mansa e uma enorme simpatia. Era grande experiência prazerosa vê-lo dirigir. Ele era, ao mesmo tempo, os atores, a câmera, a luz. Enfim, transbordava de força, emoção e dinamismo.

Com relação a Rosa, eu sentia o que ele queria transmitir. Era mágico. Quando estávamos gravando na caatinga, certa vez, meu lanche desapareceu –consequência de algum bichinho faminto, habitante da região– e assim mesmo consegui terminar a jornada daquele dia.

Acredito que não tínhamos ideia da importância da obra na qual estávamos participando. Não pude ir a estreia do filme, estava com meu filho que acabara de nascer.

Glauber impressionou diretores e críticos europeus com ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, filme cheio de uma selvagem beleza que excitou a todos com a possibilidade de um grande cinema nacional.” (Uol)


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