Aparelho de “enfeite”, vendidos em camelô vira moda entre jovens

Aparelho-ostA pessoa está a uns 100 metros de distância, mas basta dar um sorriso que os dentes chegam antes dela. Não precisa nem ser aquele sorrisão mostrando toda a arcada – até porque a única coisa que vai dar para ver é a explosão de cores no aparelho fixo, seja nas borrachinhas ou nos aros coloridos.

Pois, se você é da época que ter sorriso metálico era motivo de piada no colégio, esqueça. Agora, desfilar cheio de ferrinhos na boca é moda, principalmente entre os adolescentes. E, para eles, nem precisa de recomendação médica ou de acompanhamento de dentistas. O que vale é ‘ostentar’, mesmo que seja um aparelho falso, só pela estética.

A tendência começou no Rio de Janeiro e em São Paulo, há pouco mais de dois anos. Lá, são conhecidos como aparelho “diferenciado” ou “chavoso” (uma expressão bem conhecida nas letras de funk que significa se vestir com ostentação).

Por aqui, começou a ganhar força no ano passado. “Lá na rua, tenho cinco amigos que usam, tudo de enfeite. A gente chega no lugar e chama atenção”, diz o estudante Moacir de Jesus, 17 anos, que mora em Pernambués e foi até a Lapa para tentar comprar seu novo aparelho. Porque é bem assim: os consultórios saem para dar lugar aos camelôs, enquanto os dentistas são substituídos pela vizinha, pela prima, pelo amigo que assistiu a alguns vídeos na internet de ‘como fazer’.

venda-aparelhoMoacir – que também usa óculos de grau, sem grau – levou 100 borrachinhas azuis, 100 verdes e um arame também verde. Gastou R$ 6, ao todo. “Vou colocar hoje, com minha prima. Minha mãe fala que vai estragar os dentes, que vai ficar torto, mas não fico preocupado, porque está tudo parado”, analisou.

Preocupação é uma coisa que também nem passa pela cabeça do autônomo Raimundo Santos, 33. Ele não é mais adolescente, mas já exibe seu aparelho diferenciado há um ano. Em casa, mulher e filha também têm sorriso metálico. “O delas é ortodôntico mesmo, colocaram no dentista. Mas o meu eu comprei aqui e eu mesmo botei. Não tenho tempo para ficar indo no dentista. E, hoje, todo mundo usa, né?”, explica.

Pelo menos uma vez por mês ele sai de Laje, no Sudoeste do estado, onde mora, passa na Rua Coqueiros da Piedade e faz a festa. Na semana passada, saiu levando borrachinhas brancas e azuis. “É para a manutenção delas. Para que ir no dentista fazer manutenção, se é caro só para trocar borrachinhas? É rápido trocar, coisa de 10, 20 minutos e fica pronto”.

PREÇO  
O próprio preço dos aparelhos no camelô é um atrativo a mais para quem quer seguir a tendência. Só para ter uma noção, dá para montar um aparelho comprado na rua com menos de R$ 50. Um pacote com 20 bráquetes sai por R$ 40. As borrachinhas saem por R$ 2 e ainda tem mais R$ 2 do aro. Enquanto isso, a manutenção mais barata no consultório de um dentista não vai custar menos de R$ 50. Enquanto isso, todos os especialistas ouvidos pelo CORREIOafirmaram que não é possível definir o valor de um aparelho ortodôntico, porque depende do tratamento de cada paciente.

Na banca onde Raimundo comprou o que faltava para a tal manutenção caseira, o vendedor, que não quis se identificar, diz que chega a vender R$ 600 por dia.

Durante os 20 minutos em que conversou com a reportagem, não teve nenhum momento em que a barraca esteve sem clientes. “E olha que o movimento tá fraco hoje, viu? Os dentistas se aproveitam um pouco, colocam preços muito altos, por isso o pessoal vem para cá”, revela o camelô, que começou a vender aparelhos e seus trecos há pouco mais de um ano.

Na época, ele percebeu que o negócio tinha virado moda e resolveu investir. Primeiro, abordava as pessoas na rua, mostrando as mercadorias na mão mesmo. Depois, colocou  a barraquinha.

“A gente compra com o mesmo fornecedor dos dentistas. São coisas boas e pagamos o mesmo preço que eles”, declarou.

Tem até quem compre para levar para fora. Uma cliente de Camaçari chegou a investir R$ 150 em borrachinhas – com um desconto, levou 10 mil elásticos. “Vou fazer a moda deles lá. Eu botei o meu no dentista, mas, hoje, uso esportivamente”, diz a mulher, que preferiu não se identificar, nem entrar em detalhes.

Veja mais no Correio 24 Horas