Cerca de 3 mil estudantes brasileiros estão fazendo faculdade na Argentina

facuSeja pela ausência de vestibular ou por mensalidades mais baratas do que nas faculdades locais, baianos estão enfrentando processos difíceis e demorados para ocupar vagas em cursos de medicina na Argentina.

Em 2011, até o momento, o Consulado Argentino em Salvador já incluiu 66 estudantes, de diversos cursos, no acordo operativo entre os dois países, que concede permissão de estada mais ampla do que um simples visto.
Desses, mais de 70% são baianos, sendo a maioria estudantes de medicina. Para se ter uma ideia da progressão destes números nos últimos sete meses, em 2010, durante todo ano, foram apenas 22.
Daniela Jones não precisou recorrer diretamente ao consulado.

Ela usou os serviços de uma empresa paulista, a Isted, que agilizou seus documentos e fez a intermediação com a faculdade argentina.

Desde que decidiu deixar Salvador para estudar em outro país até assistir à sua primeira aula na Universidade de Morón, na periferia de Buenos Aires, passaram-se apenas seis meses.

“Já sou formada pela Católica, em fisioterapia, e não queria esperar tanto para começar a estudar, muito menos para concluir o curso”, justifica.

Felipe Bahia, por sua vez, teve que esperar mais um pouco para se considerar um estudante de medicina. Ele fez tudo sozinho. Primeiro procurou, no consulado, informações sobre a oferta anual de vagas para as universidades federais da Argentina  – o consulado só trabalha com escolas públicas. Depois, se inscreveu para concorrer a uma das vagas e foi um dos três selecionados.

Segundo ele, a seleção é muito mais burocrática do que avaliativa. Desde o início do processo, passando pelas entrevistas, em Salvador, e pela busca de documentação, Felipe gastou cerca de dois meses. Mas para se dizer estudante de medicina, ele teve ainda que esperar um ano, que é o tempo de duração do ciclo básico comum (CBC), cursado na Argentina.

O CBC funciona como um filtro e, se concluído, conta como o primeiro ano de um curso que dura sete. “É um ano bastante difícil. Há um grau de reprovação muito alto. Mas não é impossível de passar e eu sou a prova disso”, destaca.  Na Universidade de Buenos Aires, onde Felipe Bahia cursa o quarto semestre, o CBC é o motivo da desistência de 20% dos alunos.

Bagatela – Por estudar em uma universidade federal, Felipe não paga mensalidades. Já a faculdade particular de Daniela Jones cobra cerca de R$700. O que é uma bagatela se comparada com os R$2,5 mil, em média, que cobram as faculdades de medicina em Salvador.

No Brasil, para o aluno não pagar pelo curso de medicina, ele tem que recorrer às universidades federais, e para isso deve enfrentar uma concorrência de 100 estudantes por vaga, em média.

Ela, no entanto, paga mais R$500 mensais para manter os benefícios que a empresa intermediadora proporciona. Além da possibilidade, através de uma prova, de não ter que cumprir os três meses de CBC, a empresa ainda toma conta de toda a documentação junto às autoridades argentinas e oferece cursos para suplantar a diferença de horas nas grades curriculares em relação às brasileiras.

Enquanto boa parte das faculdades argentinas tem uma carga horária que chega a cerca de seis mil horas, o Ministério da Educação brasileiro exige um mínimo de 7,2 mil horas para o curso de medicina.

Essa defasagem pode ser mais uma dificuldade no processo de revalidação do diploma pelas escolas brasileiras, procedimento essencial para o exercício da profissão em território brasileiro.

Aluguel pode pesar no bolso

Apesar de contar com ensino gratuito, para se manter perto das salas de aula, Felipe Bahia desembolsa um bom dinheiro. Ele aluga um apartamento por 2.400 pesos, algo em torno de R$1.200.

“É sempre mais caro morar sozinho e em bairros centrais, como é o meu caso. Muitas pessoas diminuem esse gasto dividindo apartamento ou morando mais afastado”, informa.

Daniela Jones não divide seu apartamento, no entanto não mora num bairro central e por isso paga o equivalente a R$500 mensais por uma quitinete. “Estou adorando, estava doida para morar só e o apartamento é novinho. Sou a primeira moradora”, comemora.

Adaptação – Superar quase tudo: correr atrás de documentos, traduções, entrevistas, provas, cursos, e ao final, ou melhor, ao começar a tão sonhada faculdade de medicina, fazer as malas e volta para casa.  Daniela conta que da turma de 120 brasileiros que chegaram com ela, através da Isted, cerca de 20 já desistiram. Os motivos são os mais diversos, segundo ela.

“Entre os que conheci, alguns vieram muito novos e sentiram muita falta dos pais. Outros não conseguiram lidar com a dificuldade que é dividir apartamento ou conviver com os argentinos e há também aqueles que não tiveram condições de se dedicar como é necessário para concluir estudos em outra língua”, listou.

Para Felipe Bahia, o maior desafio dos brasileiros é a exigência do curso. Reconhecida como uma das mais importantes da América do Sul, a Universidade de Buenos Aires (UBA) atrai muitos brasileiros, mas poucos aguentam o ritmo de estudo.

Segundo ele, no entanto, voltar para o Brasil não é a única saída para quem desiste da UBA. “Muitos vão para universidades particulares, onde o ciclo básico é mais curto e onde eles podem testar a ideia de que estão indo por um caminho mais fácil”, conta.

A relação com os argentinos, principalmente por falta de domínio da língua, e a saudade de casa são, para Felipe, outros motivos de desistências.

“Acho que todos que chegam a um país diferente, com outra cultura, outra forma de pensar, acabam se sentindo um peixe fora d’água e isso, sem dúvida, aumenta a saudade de casa, mas com o tempo, e com força de vontade, a adaptação chega”, afirma.

Mais de 3 mil estudantes brasileiros

Não existem números oficiais, nem no Brasil, nem na Argentina, mas o setor privado apresenta estimativas que apontam a presença de quase três mil estudantes brasileiros em Buenos Aires e mais de 15 mil espalhados pelos países do Mercosul.

Para o chefe do Consulado Argentino em Salvador, o cônsul José Crescencio Quijano, o fluxo crescente de brasileiros em seu país representa mais do que um simples aproveitamento da valorização da moeda brasileira.

Quijano acredita que a tão buscada tentativa de integração, não só entre o Brasil e a Argentina, mas entre todos os países da América do Sul, iniciada na década de 80, com a criação do Mercosul, está atingindo um sentindo mais amplo.

Segundo ele, a integração desejada entre os dois países ocorria somente pela via econômica, a qual está, hoje em dia, bastante interrompida devido à concorrência entre grupos econômicos dos dois lados.

“Mas, em compensação, a via das relações humanas está com seu fluxo intensificado e isso é muito bom para que os dois povos se desenvolvam”, explica.

Baseado na ideia de que a partir do conhecimento se perdem preconceitos, Quijano, se mostra feliz em perceber que atualmente há muitos brasileiros vivendo na Argentina, dando a chance ao povo argentino de conhecer melhor o brasileiro e vice-versa.

“Nós não nos conhecíamos realmente. Antes, os argentinos, de uma forma geral, não conheciam negros, por exemplo, só a distância, mas o verdadeiro conhecimento se dá através da troca de experiências, e isso está acontecendo agora.” (Tribuna da Bahia)