Cota para creches: melhor do que para a universidade

cinthiaA discussão sobre cotas nas universidades está ficando para trás. Depois do Supremo Tribunal Federal (STF) apresentar argumentos irrefutáveis na decisão a favor do benefício, em 2012, até os redutos mais conservadores, como a Universidade de São Paulo (USP) começam a aderir. Se faz sentido buscar formas de compensar a falta de oportunidades dos jovens negros e pobres, muito mais sentido faz dar formação educacional à população mais vulnerável a partir da primeira infância e esperar que outras gerações não precisem do mesmo recurso.

Apesar dessa obviedade, só a partir do ano que vem as creches de São Paulo começarão a ter cotas. Atualmente ocorre o seguinte absurdo: o município atende 46% das crianças de zero a 3 anos em centros de educação infantil. É pouco, no entanto, entre os mais pobres, aqueles cadastrados para receber o Bolsa Família por ter renda mensal per capital de até R$ 70, o atendimento é ainda menor, de apenas 22%. Começa aí um novo ciclo de desigualdade.

Defendo o tempo todo a participação efetiva da sociedade crítica e escolarizada na educação pública como forma de exigir a qualidade que ela deve ter. Por conta disso, inscrevi meus filhos em creche municipal sem jamais esperar que as vagas fossem aparecer tão depressa, como já expliquei aqui. Durante este primeiro ano como mãe de alunos fiz o que esteve ao meu alcance para garantir a melhor escola possível a todas as crianças do centro de educação infantil, desde inserir na pauta do Conselho de Escola questões que interessavam ao conforto das crianças na entrada da instituição, até colaborações financeiras e de materiais, passando por exposição de problemas de políticas públicas e cobrança de melhorias.

Acredito ter ajudado de alguma forma e continuo torcendo para termos cada vez mais interessados em melhorar a escola pública dentro dela. Mas tudo isso pressupõe o acesso à escola para todos, que existe de direito, mas não de fato. A diminuição da fila precisa ser trabalhada de duas formas que todos conhecem bem: aumentando a capacidade de atendimento total, mas também passando a frente aqueles com necessidades especiais.

Pela medida, 20% das novas vagas serão destinadas a beneficiários do Bolsa Família. Como o porcentual de crianças nesta situação é menor do que isso (atualmente de 5% da fila, mas com potencial para crescer), em pouco tempo todos devem ser atendidos. Ficarei muito feliz se forem colegas de turma dos meus filhos e tenho certeza que farão bem uns aos outros.

Cinthia Rodrigues é Jornalista de Educação e mãe de alunos matriculados na rede pública de ensino.
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