Família de baiano morto por populares após ser confundido com estuprador tentar superar dor

img-13c2db22e4ba58fbb3bfcd9dbd3f6fc3O provérbio “Nada está tão ruim que não possa piorar” pode até parecer exagerado para muitos, mas não no caso da família da dona de casa Zerlinda Maria da Silva, 64 anos, o seu esposo  Roberto Luís dos Santos, de 57 anos, baiano que se mudou para Mato Grosso em busca de emprego, foi espancado até a morte por populares em um bairro de periferia em Várzea Grande (MT), na Grande Cuiabá, após ser confundido com um estuprador no início do mês.

Quando ele passava pela rua Argentina do bairro Jardim Imperial II, um homem o xingou de estuprador, gritando alto, como informa a Polícia Militar. Porém, em sua ficha não consta acusação de estupro. Em pouco tempo, a vítima foi cercada e espancada a chutes, socos e pontapés. Quando a PM chegou, encontrou-o desfalecido. Encaminhado ao Pronto-Socorro, morreu no box de emergência, não resistindo aos ferimentos.

Sem moradia e renda fixa, Zerlinda não conhece abundância, mas vivia resignadamente até o início desse mês, quando a tragédia bateu à porta de sua casa. Ao lado do marido, seu companheiro por três décadas, estava conformada em ter o dinheiro do aluguel (R$ 200), da luz e da água todos os meses e, claro, comida no prato diariamente. Não que tivesse abandonado o sonho da casa própria.

A renda que mantinha a família, menos de um salário mínimo, vinha dos pequenos e eventuais consertos que o marido fazia em máquinas de lavar roupas no quintal de casa, na periferia de Várzea Grande.

Assistindo ao esforço do marido, ela costumava auxiliá-lo lavando os parafusos e as peças dos eletrodomésticos que chegavam à oficina improvisada.

Mas um sentimento oposto, de revolta, invadiu a mente e o coração da dona de casa “As imagens da cabeça esmagada, o rosto afundado, e braços e pernas quebrados não saem da minha cabeça. Ele estava deformado, irreconhecível. É como se eu estivesse assistindo àquela cena de horror o tempo todo”, desabafa dona Zerlinda.

Roberto não era um homem agressivo ou criminoso procurado, seu único defeito “beber cachaça”. Bebia muito e ficava até dois dias fora de casa, principalmente nos finais de semana.

“É uma grande covardia. O que fizeram com ele não se faz nem com um cachorro”, desabafa. Desde o dia em que viu o marido morto dona Zerlinda não consegue dormir ou se alimentar adequadamente e já perdeu vários quilos.

“Se pego no sono logo salto assustada, como se o corpo dele, deformado e irreconhecível, estivesse ali, na minha frente”, descreve.

Não bastasse o sofrimento da perda, da violência, ela não sabe o que vai ser da vida sem o marido provedor. Não tem conhecimento técnico para fazer o trabalho dele, o próximo aluguel está por vencer e ela está sem dinheiro para as despesas mais elementares.

Tarzan era natural de Itabuna (BA) e conheceu dona Zerlinda em Cuiabá, enquanto caminhava em uma rua no bairro do Porto. Viveram um período em Cuiabá, depois seguiram para Manaus, onde moraram por quase 20 anos.

De volta a Mato Grosso há quatro anos, eles passaram a morar em Várzea Grande. O casal tem dois filhos, Jaqueline, que mora em Manaus, e Jackson, em Várzea Grande.

A família não teve dinheiro para o funeral e teve de recorrer aos serviços da prefeitura para o enterro, tanto para a cova, quanto para o caixão.

*Com informações de LECY ALVES