EDITORIAL ANO III NÚMERO 186 – NÃO BASTA SER HONESTO

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Agenor rAinda que para alguns mortais, obviamente brasileiros, tornou-se uma prática comum encontrar embasamento de natureza cultural para justificar os desvios de conduta nos seus atos de desonestidade, existem as poucas exceções para as quais “ser HONESTO não é virtude, é obrigação”!

O comportamento humano sofre influência de vários matizes, tanto para o bem como para o mal. Pode parecer recorrente, mas nunca é demais repetir o sábio pensamento do ilustre baiano Ruy Barbosa, quando em discurso no Senado Federal, em 1914, definiu com raríssima felicidade que: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Verdades como essas ditas pelo sábio Ruy Barbosa, há 106 anos, vergonhosamente permanecem presentes no contexto político nacional, ao ponto de mesmo o país convivendo com uma tragédia como a atual, em que milhares de vidas são ceifadas todos os dias (mais de 50.000 mortos!), políticos irresponsáveis continuam indiferentes ao sofrimento de milhões de brasileiros.

Infelizmente, a classe política está infestada de desonestos, que se aproveitam de um momento de “estado de calamidade” para assaltar os cofres públicos, a exemplo dos recentes escândalos na compra dos respiradores para as UTIs, em alguns Estados, e a Merenda Escolar, em Belém-PA. E aqui não estou escrevendo fora da realidade, porque os noticiários estão aí recheados desse assunto indigesto e imoral. Já se foi o tempo em que ser honesto era uma regra de vida e total obrigação, enquanto agora tem um caráter de tanta excepcionalidade, que a pessoa detentora dessas qualidades passou a ser merecedora de altos elogios.

Ao se falar em honestidade, vem à lembrança um episódio histórico bastante ilustrativo, envolvendo o Imperador romano Júlio Cesar (62 a. C.), que se divorciara da segunda mulher, a Pompeia Sula. No Tribunal o Imperador foi solicitado a depor contra o jovem Publius Clodius, acusado de ter usado um disfarce feminino para se aproximar da mulher do Imperador numa festa íntima. Não desejando atribuir a culpa unicamente ao jovem, usou de uma expressão que se transformou num provérbio popular por mais de 2.000 anos: “À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta”!

Por analogia, é cabível a afirmativa de que aos homens públicos NÃO BASTA SER HONESTO, mas, além de parecer, que sejam dotados de outras competências e qualidades imprescindíveis ao desempenho da condição de comando. O verdadeiro líder não se impõe pela agressividade e ameaças constantes, mas, conquista pela habilidade a confiança de bom gestor, e a credibilidade junto ao seu povo, no caso dos governantes.

Nas entrevistas ou declarações num cercadinho junto aos apoiadores de todas as manhãs – aliás, gente que nem trabalha, nem fica em casa, nem usa máscara! -, muito se ouviu que não joguem no colo da Presidência da República as mortes contabilizadas e sim no colo dos Governadores e Prefeitos, passando na voz uma dolorosa sensação de alívio, omissão e transferência de responsabilidade! Tipo assim: não tenho nada a ver com isso, quando todos sabem que tem!

Ora, no instante mais grave da vida nacional, em que é imprevisível o elevado número de brasileiros que perderão as suas vidas pela Pandemia, não é justo que nos sintamos órfãos de um líder nacional (palavra difícil nesse país), e estamos a testemunhar uma politicalha suja, velha e irritante entre o Presidente e alguns Governadores – leia-se RJ e SP -, em que a candidatura à sucessão é sempre o foco da questão! E dane-se quem está morrendo e perecendo nos hospitais. É como se existisse um vácuo institucional.

Conclusão: realmente, não basta ser honesto!

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Agenor Santos

Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – Salvador – BA.

 

Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade – 2020

Comentários

11 COMENTÁRIOS

  1. Mesmo depois de 106 anos, a frase do baiano Ruy Barbosa “o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto” permanece irretocável.
    Se analisarmos o perfil de uma parcela dos nossos administradores, iremos notar que ao contrário da mulher de César, eles não tem o menor cuidado ou interesse de, pelo menos, parecerem honestos.

  2. Amigo Agenor, adorei a sua bela reflexão, entretanto, devo ressaltar que, no que toca à Presidência da República Federativa do Brasil, faltou após determinar o estado de calamidade face ao que estamos presenciando, assim como, deixou que, um Supremo tribunal Federal e o Congresso Nacional, deliberassem sobre o assunto em tela, deveria ter tido mais força de vontade de governar, sem passar a mão na cabeça dos filhos infiéis e acreditar mais na Providência Divina que lhe deu o cargo através do povo. O que palavreou em seu início, foi por água abaixo. Sou ainda adepto ao escrito no Evangelho de Jesus. (Rio de Janeiro-RJ).

  3. Gostei, Agenor. O tema foi bem colocado e desenvolvido de forma real, sem ofensas e respeito às linhas ideológicas de cada cidadão leitor. (Salvador-BA).

  4. Você mais uma vez vem dar um brilho em sua crônica com a sua memória fantástica, quando repete o pensamento do sábio e ilustre baiano Ruy Barbosa em discurso no Senado Federal, em 1914. “Verdades como essas ditas pelo sábio Ruy Barbosa, há 10 anos”. E, finalmente, conclui afirmando que atualmente aos homens públicos NÃO BASTA SER HONESTO. PARABÉNS, PELA SUA EXCELENTE CRÔNICA. (Manaus-AM).

  5. Gostei do tema “Não Basta Ser Honesto”. No momento do maior patamar diário por mortes pelo novo coronavírus, os compromissos relacionados à pandemia compõem só 7% das agendas de Bolsonaro desde março, segundo levantamento do Globo. Políticos negociando aparelhos respiradores acima do preço normal, obtendo lucros, venda de óbitos de para outras cidades, etc. Mesmo assim, temos certeza que venceremos essa batalha (Salvador-BA).

  6. Tristes e difíceis dias, não é, meu amigo??? E me sinto ainda mais desamparada ao não ver alguém (que aparente ser) honesto, que tenha liderança e conhecimento e que seja político e possa vir a ser uma esperança…
    Sobreviver bem a 2020 tem que ser agora nosso objetivo; continuar a pensar , analisar e ser resiliente, uma necessidade para hoje e sempre. (S. Paulo-SP).

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