ENTRE À TUBAÍNA E À CLOROQUINA, DOIS BRASIS?

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TuvainaReluto em achar que hoje temos dois Brasis, porque mesmo tendo procurado aquele outro Brasil, que pensava existir, não o encontro, pelo menos nesse momento. O Brasil que procuro é aquele da Tubaína, o refrigerante que por décadas adoçou o paladar de toda uma geração e que, depois do surgimento de muitas marcas importadas que ainda hoje dominam o mercado, passou a ser o refrigerante dos pobres, com a sua interiorização. A Tubaína tem cheiro desse Brasil que insisto em procurar, lembra aquele Brasil de um menino pobre, que chorava por não ter a camisa da seleção para torcer na Copa do Mundo, em frente ao velho televisor. Esse Brasil era canarinho, um dos muitos passarinhos da nossa fauna, que traz na sua penugem uma das cores da nossa bandeira. O Brasil que procuro é um Brasil rural, afinal o Brasil não é só litoral, é brejeiro como nos versos genuínos de Drummond,

Casas entre bananeiras

mulheres entre laranjeiras

pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.

Um cachorro vai devagar.

Um burro vai devagar.

Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

O Brasil nacionalista é aquele sustentado por Mario de Andrade, por Tarsila, por Oswald, dentre muitos outros que defendiam uma arte que tivesse a nossa cara, a nossa brasilidade. Está na paixão de Jobim pelas árvores, pelos passarinhos. Brasil dos pampas, pantaneiro, amazônico, nordestino, plural na sua diversidade. Tão gigante e tão lindo que não o conhecemos na sua essência, a tal ponto, de a música de Marisa Monte “Bem Leve”, nos causar estranheza, como se aquelas palavras não nos dissessem da nossa cultura, da nossa flora, dos nossos costumes mais rurais, quando nossos parentes faziam os próprios caixões para enterrar os seus entes. – Quando menino eu vi alguns homens talhando a madeira para fazer o caixão de minha vó -, e a referida música de Marisa, fala disso, dos tipos de madeira comuns para o feitio do ataúde:

“Jacarandá, Peroba, Pinho, Jatobá, Cabreúva, Garapera

Uma palavra de madeira cai no chão

Caixão, dessa maneira”…

Ou quando ouvimos nos versos de Geraldo Azevedo, o seu lamento frente ao desmatamento, e pouco sabemos de que árvores se tratam, mas que são nossas, desse Brasil ainda desconhecido por uma grande maioria:

…É caviúna, cerejeira, baraúna

Imbuia, pau-d’arco, solva

Juazeiro, jatobá

Gonçalo-Alves, paraíba, itaúba,

Louro, ipê, paracauba,

Peroba, massaranduba

Carvalho, mogno, canela, imbruzeiro

Catuaba, janaúba, arueira, araribá

Pau-ferro, angico, amargoso, gameleira

Andiroba, copaíba, pau-brasil, jequitibá.

Aldir Blanc já nos dizia, “O Brasil não conhece o Brasil”. E ele, que muito conhecia desse Brasil, partiu sem uma nota oficial sequer de pesar, como um mero desconhecido por alguém que assume a pasta da cultura do governo.

O Brasil da Tubaína é o mesmo que descia a ladeira dos morros cariocas, sem medo ainda das balas perdidas, decantado por Moraes Moreira. É o Brasil do Mestre-Sala e Porta-Bandeira, da cajúina do Piauí, do Divino Espírito Santo de Minas, dos folguedos de São Benedito, do batuque da alfaia no maracatu rural, do afoxé dos Filhos de Gandhy, do gosto da jabuticaba, da culinária do seu povo miscigenado, tem o cheiro e o gosto da pamonha do milho pisado no pilão, que minha mãe fazia.

É o Brasil das lavadeiras, das rendeiras, dos vaqueiros, dos tropeiros de Guimarães Rosa, do misticismo religioso, dos muitos cultos, das muitas crenças, das muitas rezadeiras e parteiras…

Mas esse Brasil de agora? O Brasil negacionista, raivoso, que não lamenta a morte dos seus quase quinze mil mortos, não existia? Surgiu em 2018? Creio que não. Ele não é o Brasil de uma maioria, mas sempre esteve aí. É o Brasil que traz o ranço de 300 anos de escravidão, que insiste ainda em manter os pés na casa grande, que nega os direitos trabalhistas de domésticas, que nega as suas minorias, que assassina índios, mendigos e população LGBT.. Esse Brasil segregacionista, perverso, sempre esteve aí, aos nossos olhos, nos grandes camarotes do carnaval, nas políticas públicas do Estado, que não garantem acessibilidade à cultura, ao direito à educação pública e de qualidade para todos, à saúde etc. Esse é o Brasil da Cloroquina, de estúpidos senhores empresários, que, em meio à uma pandemia, fazem carreatas e protestos contra o STF, pedem a volta do AI – 5 (Ato Institucional número cinco), um dos mais terríveis do Regime Militar, em que se torturava mulheres na frente dos filhos, torturava e matava da forma maios cruel, aqueles que se opunham à falta de expressão e a tantos outros direitos negados. É o Brasil que exalta torturadores e ignora o seu passado.

O Brasil, herdeiro da Coroa, sempre esteve aí, nos clubes de hipismo, em suas lanchas, no chá das cinco das senhorinhas e suas mucamas uniformizadas, subindo e descendo pelo social, de olhos fechados para o outro Brasil, sobretudo o preto, pobre, periférico, marginalizado.

Entre ser medicado com o Brasil da Cloroquina e o Brasil da Tubaína, prefiro o Brasil da Tubaína, aquele em que pensávamos ser pleno em sua empatia, mas que não precisava ser coveiro pra saber dos seus mortos. O Brasil de Mãe Preta, a prostituta mais famosa de Salvador, que após o fim da sua profissão, resolveu transformar sua casa em espaço de acolhimentos para os mais vulneráveis da Ladeira da Montanha. O Brasil de Nise da Silveira, que por meio da arte, disse não à medicalização dos seus pacientes. O Brasil dos ribeirinhos, dos índios ainda sem contato com o homem branco, o Brasil de Zumbi, livre, libertador… O Brasil do Luar do Sertão, enaltecido por Luiz Gonzaga, o Brasil revolucionário, de Carlos Prestes, de Olga Benario, de Lamarca. O Brasil dos autos populares de Suassuna, e resistente como o de Canudos. O Brasil popular de Patativa, de Câmara Cascudo. O Brasil desnudo, sem lugar para a farsa da família tradicional e dos bons costumes, como o de Nelson Ridrigues.

Sim, se por ventura eu adoecer, me prescrevam esse Brasil, coloquem no respirador o cheiro da Tubaína, cantem ladainhas, soprem o berrante, chamem os repentistas. É nesse Brasil que quero ter a sorte de findar, ou de tê-lo de volta, para que as próximas gerações o conheçam.

Ivan 3 150x150 1Fonte e autor: Ivan Santtana

 

Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade – 20/05/2020

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