POR QUE ENTÃO AS SEGURADORAS TEM PREÇOS TÃO DIFERENTES?

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José Luís S Ferreira da Silva

Na coluna anterior falamos sobre o cálculo de seguro e usei o seguro de auto para uma explicação o mais didática possível para a compreensão da origem dos prêmios pagos pelos segurados. Dada a visão matemática (matemática é a mãe da estatística) lancei uma dúvida: por que então as seguradoras tem preços tão diferentes?

De fato, causa estranheza nos depararmos com cotações de prêmio com grandes diferenças obrigando o corretor de seguros a cotar em mais de uma seguradora para ter e dar parâmetros de escolha ao seu cliente, sem risco de ser surpreendido por um custo muito mais baixo que o cliente venha a receber de um concorrente.

Mas quais seriam as razões destas diferenças?

Exposições desiguais.

Dentro da história de cada seguradora elas acabaram atraindo segurados de diferentes regiões, perfis, marcas, anos e modelos de veículos. Ou seja: elas têm amostras expostas desiguais e muitas sem significância estatística para fazer a taxação (número de itens expostos pequeno naquela célula de análise de idênticos perfil, região, veículo). Então elas acabam juntando alguns perfis e regiões para conseguir amostras com maior grau de significância estatística e, como umas tem mais perfis de um tipo que outras, presenças diferentes em cada região ou atraíram mais ou menos certas marcas de veículos, os preços começam a ficar diferentes já que as exposições analisadas são diferentes. Lembre-se de que achar muitos itens idênticos para taxar com tamanha variedade de marca, ano, modelo de veículos, perfis de segurado e regiões exige uma frota muito grande e bem distribuída, o que é difícil num país do tamanho do Brasil.

Quanto maior a amostra exposta melhor ela traduz o risco.

Controle de indenizações.

Indenizar bem não é pagar nem mais nem menos, é pagar o justo.

Se a seguradora não acompanha seus custos de sinistro da forma devida tende a pagar mais do que o correto e isto aumenta os gastos com sinistros que acabam indo parar nos prêmios como demonstrado na coluna anterior, o que tira a competitividade. Entendeu as vistorias, oficinas credenciadas e sindicâncias?

Modelo estatístico.

A forma de fazer os cálculos na coluna anterior foi mais que básica. Existe uma complexidade que depende de investimento tecnológico, dos modelos estatísticos atualizados, de coleta de dados e da experiência acumulada de cada seguradora em taxar. Isto diferencia o resultado final das análises das exposições.

Velocidade.

Algumas seguradoras fazem os lançamentos dos sinistros muito rapidamente no seu sistema de análise e outras com mais vagar. Se a sinistralidade aumenta, as primeiras repassam ao preço mais rápido que as segundas. Se a sinistralidade cai idem. Recentemente assistimos a um comportamento inesperado na sinistralidade que surpreendeu as taxações e exigiu correções de preços graças as mudanças de comportamento social advindas da pandemia. Subscrever o prêmio a ser tomado é estimar o caminho a frente olhando pelo retrovisor.

A norma que obriga a seguradora a apropriar o prêmio mensalmente, mesmo que tenha recebido a vista, leva a um estoque de valores em reserva (da aplicação de reservas vem o resultado financeiro) que dá a segurança operacional para suportar eventuais mudanças repentinas de risco.

Controle de despesas.

Despesas administrativas são despesas de funcionamento: salários, imóveis, móveis, equipamentos, sistemas, fornecedores, terceiros, água, luz, etc. Algumas têm despesas administrativas menores pois definiram que vendem produtos mais enxutos, sem tantos benefícios ou com atendimento simplificado. Outras despesas maiores, pois, optam por benefícios, serviços e atendimentos de maior complexidade. E, claro, vai aqui a competência de gestão de cada uma em oferecer o máximo gastando internamente o mínimo. Gastar menos e oferecer mais é ser atraente e competitivo.

Carregamento da comissão.

Fixe um conceito: quem paga a comissão não é a seguradora, é o segurado. A seguradora apenas repassa a comissão embutida no prêmio que cobrou e zela para que carregamentos elevados não tirem sua competitividade de preços e, portanto, diminuam as vendas. Não é incomum comparações de preços entre seguradoras sendo que numa o carregamento está muito maior que na outra.  É importante o corretor ser justo quando faz comparações observando se igualou comissões.

Subscrição.

É todo o processo de seleção de riscos, cálculo do prêmio a ser cobrado, do clausulado do contrato e o controle da sinistralidade.

As seguradoras têm políticas de aceitação diferentes e, portanto, concentram exposições diferentes. Se você é corretor seguros provavelmente já deve estar lembrando de aceitações e recusas de riscos iguais em diferentes seguradoras.

A subscrição visa muitas vezes a exclusão de riscos de alta severidade (alto valor no caso de indenização) e baixo apelo comercial (interessam a pouca gente). Se a seguradora se expõe a estes riscos, aumenta a sinistralidade e os custos de todos para atender a uma minoria que, quando se depara com preços ajustados por sinistralidade, também sai cotando. Daí os clausulados com exclusões de riscos.

Acreditem que esta coluna e a anterior são simplórias em termos de descrever todo o processo de construção da política de preços de uma seguradora. Muitas outras regras de segurança financeira foram desenvolvidas com a experiência nacional e internacional com o objetivo de oferecer ao consumidor um produto de risco futuro e variável pago a um valor fixo no presente.

Não há como vender uma cobertura de risco como uma seguradora sem todos estes rigores. A forma que as associações ou cooperativas adotaram é de não assumir o risco. Ajustam preços e franquias depois do sinistro e sem previsibilidade nenhuma de custos para o consumidor. O que vale é a disponibilidade de caixa para fazer os pagamentos de indenizações do mês.

Se as seguradoras pudessem atuar assim cobririam com folga os preços e as aceitações das associações ou cooperativas.

Mas isto não é seguro.

Fonte: https://www.cqcs.com.br – José Luís S Ferreira da Silva atua no mercado segurador há 35 anos, foi diretor da Porto Seguro Seguros, Europ Assistance, Tokio Marine Seguradora e atualmente é Diretor Geral da GC do Brasil. É formado em Direito (PUC), pós-graduado em Administração de Empresas (FGV) com MBA em Seguros (IBMEC/Funenseg) e com diversos cursos de especialização. Ex reitor do Clube da Bolinha SP, membro do conselho da Associação Paulista dos Técnicos de Seguros (APTS), coordenador da cátedra Canais de Distribuição da Academia Nacional de Seguros e Previdência (ANSP), palestrante de diversos encontros, eventos e congressos (inclusive os CQCS´s Insurtech 2018 e 2019). Apaixonado pelo mercado de seguros e consciente de que o sucesso depende do respeito aos corretores de seguros, concorrentes, colaboradores e prestadores.

 

Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade – 22/07/2021

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