“Saio triste daqui” diz Lula após ser hostilizado por multidão de camponeses no Rio Grande do Sul

Uma manifestação de mais de duas mil pessoas, entre elas muitos produtores rurais, contra a presença do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva em Bagé, no Rio Grande do Sul, terminou no início da tarde desta segunda-feira (19) sem confrontos. A caravana do ex-presidente – (que conta também a presença da ex-presidente Dilma Rousseff) deu início a uma viagem de 10 dias pela região Sul do Brasil, começando por Bagé, onde falou na Unipampa (universidade Federal do Pampa).

Fotos Ricardo Stuckert

Manifestantes pró-Lula até tentaram, segundo relatos de produtores que estiveram na concentração em Bagé, iniciar um conflito, jogando pedras nos produtores, porém, a confusão logo foi contida pela Brigada Militar do RS. Duas pessoas que protestavam a favor de Lula saíram do local algemadas.

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O protesto contou ainda com mais de 300 tratores e caminhões, como ilustra o vídeo a seguir, enviado ao Notícias Agrícolas por um produtor rural que esteve na manifestação, além do boneco Pixuleco que representa Lula vestido de presidiário dentro de uma cela, içado por um guindaste. O grito de ordem era “Bagé não, Lula ladrão”.

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Enquanto os protestos continuavam do lado de fora da Universidade de Bagé, do alto de um trio elétrico, o ex-presidente falava de outro assunto: sobre a importância dos investimentos em educação. No entanto, demonstrou também o que pensa sobre o agronegócio nacional. “Investir em educação não é gasto, investir em educação é uma necessidade. Porque o Brasil não quer ser eternamente exportador de soja, o Brasil quer ser exportador de inteligência. É por isso que fiz questão de vir aqui”, disse aos apoiadores.

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‘Saio triste daqui’, diz Lula após protestos durante caravana em Bagé (na FOLHA)

Segundo relato da repórter Cátia Seabra, da Folha de S. Paulo, ruralistas e simpatizantes do deputado federal Jair Bolsonaro usaram caminhões e tratores para bloquear o acesso da comitiva de Lula à Unipampa (Universidade Federal dos Pampas).

Manifestantes avançaram na direção da universidade, exigindo que a caravana usasse a via lateral do campus.

À saída, o petista teve que discursar sobre um carro de som estacionado ao lado do ônibus da comitiva, para que subisse rapidamente. Pela programação original, ele usaria um carro de som maior, onde ficaria mais vulnerável.

“Confesso que saio triste daqui. Porque não vi empresário ofendendo a gente. O que vi aqui foi pobres e trabalhadores, que, às vezes, estão até desempregados ganhando alguma coisa para ofender a gente”, discursou Lula, após afirmar que não quer que o Brasil seja eternamente um exportador de soja.

Em um discurso de oito minutos, o ex-presidente chamou seus opositores de fascistas, acusando-os de constranger professores e alunos para que não o recepcionassem na universidade.

“Sinceramente, não esperava que nossa passagem por Bagé fizesse com que a direita fascista reclamasse junto ao MP que eu não pudesse fazer ato na universidade”, disse.

“Essas pessoas deveriam ter feito o protesto quando viemos criar a universidade, afirmou.

Ao seu lado, Dilma Rousseff também se manifestou sobre o agro, dizendo que as gestões do PT foram as que mais disponibilizaram recursos para o setor, contribuindo, inclusive com medidas de reforma agrária para pequenos agricultores e assentados.

Mas para o presidente do Sindicato Rural de Bagé, Rodrigo Borba Móglia, a caravana tem outro objetivo: “Isso não passa de  mais um movimento de pressão para retardar e evitar a prisão de Lula. Afinal, Lula poderia ser preso ainda durante a viagem desta caravana, uma vez que a 8ª Turma do Tribunal Regional Federal (TRF-4), com sede em Porto Alegre, julga um último recurso que poderia esgotar a segunda instância para o político. O julgamento acontece no dia 26.

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“É uma pressão, mas de outro lado, nós estamos pressionando para que ele seja preso. E se isso vier a acontecer (ele não for preso), teremos uma comoção social no país. Isso é uma afronta à Justiça, uma afronta à democracia se esse bandido não for para a cadeia. Se o STF afrouxar neste momento estará dando uma demonstração clara de covardia. É inaceitável o STF se dobrar à pressão política, já que tem que se ater à lei, tendo a clarividência de fazer a justiça igual para todos”, diz Borba em entrevista ao Notícias Agrícolas.

As duas opções seguintes de Lula são recursos da condenação no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF). Enquanto isso, sua equipe segue em tratativas para evitar a detenção.

“Avançam as articulações de ministros do Supremo para, em tratativas com a defesa do ex-presidente Lula, acabar com a prisão após condenação em segunda instância e mudar os rumos da Lava Jato. Como a presidente Cármen Lúcia mantém firmemente sua palavra de não colocar a questão em pauta, a solução que emerge é criativa e sofisticada”, explicou a jornalista Eliane Catanhêde em uma matéria no Estadão.

E completa dizendo “Cármen Lúcia foi chamada para uma reunião na próxima terça-feira, provavelmente para discutir a ideia de, em vez da segunda instância, o plenário autorizar o cumprimento da pena após condenação no STJ. A prisão de Lula seria adiada por muitos meses, caso mantida; os presos após a segunda instância entrariam com HC; os futuros condenados respirariam aliviados. E a Lava Jato? O que fez, fez; o que não fez, só fará em parte”.

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